As eleições parlamentares realizadas no último domingo (19) na Bulgária terminaram com a vitória da coalizão de centro-esquerda Bulgária Progressista (BP), ligada ao ex-presidente Rumen Radev, que obteve 44,5% dos votos.
Em segundo lugar ficou a aliança GERB-SDS, que já foi dominante no cenário político do país, com 13,3%, seguida pela coalizão Continuamos a Mudança, Bulgária Democrática (PP-DB), que alcançou 12,6%. Com esse resultado, a BP conquistou assentos suficientes para formar governo.
Durante seu mandato e também após deixar a presidência em janeiro, Radev fez críticas recorrentes à União Europeia pela condução da crise na Ucrânia. Em suas declarações, ele questionou a estratégia de apoio irrestrito a Kiev, argumentando que o conflito prolongado com a Rússia tem custos econômicos e políticos que acabam recaindo sobre os países europeus.
Para o geopolítico Fiodor Lukianov, editor-chefe da revista Russia in Global Affairs e presidente do Conselho de Política Externa e de Defesa da Rússia, não é surpreendente que Radev tenha sido frequentemente rotulado como "pró-Rússia".
Segundo ele, "hoje basta demonstrar pequenas dúvidas sobre a conveniência da linha comum europeia de isolamento total da Rússia e apoio irrestrito à Ucrânia para ser praticamente etiquetado como agente do Kremlin", afirmou o analista político em um artigo publicado nesta semana.
Ainda assim, Lukianov avalia que o ex-presidente búlgaro se mostra mais pragmático do que ideológico, ao defender que os interesses nacionais da Bulgária não precisam seguir automaticamente todas as diretrizes de Bruxelas. Para ele, mesmo que exista qualquer simpatia em relação a Moscou, isso não seria explicitado no ambiente político atual da União Europeia, onde a dissidência ocorre apenas em "doses limitadas".
O analista lembra, porém, que países como Hungria e Eslováquia mostram que líderes mais resistentes conseguem, em certa medida, ampliar esses limites dentro do bloco.
Impacto limitado no bloco europeu
Na análise de Lukianov, os movimentos políticos no leste e sudeste da União Europeia não devem ser superestimados em termos de influência direta sobre a política geral do bloco ou da OTAN.
Ele cita o exemplo da Hungria sob Viktor Orbán, frequentemente em atrito com Bruxelas, mas ainda sem conseguir alterar de forma estrutural a linha política europeia. Segundo o especialista, mesmo os casos de divergência em países como Eslovênia, Croácia ou Romênia acabam se limitando a posições verbais, sem impacto decisivo.
O mesmo se aplica, em sua visão, a países que ingressaram na UE no século XXI, que permanecem fortemente dependentes do bloco. Até mesmo a Polônia, apesar de sua ambição política e econômica, teria conseguido apenas defender interesses próprios sem mudar o rumo geral da União Europeia.
Mudanças graduais e "coalizão dos relutantes"
O segundo ponto destacado pelo analista é que, embora a influência direta desses países seja limitada, há mudanças graduais em curso no Leste Europeu, que tendem a se intensificar.
Ele alerta contra leituras simplistas que dividem esses movimentos entre "pró-Europa" ou "pró-Rússia", afirmando que essa interpretação seria uma distorção do cenário real.
Na avaliação de Lukianov, países vizinhos à Ucrânia passam a perceber com mais clareza os riscos e custos associados ao prolongamento do conflito. Enquanto isso, as grandes potências europeias evitam arcar diretamente com esses custos, que acabam sendo repassados a Estados mais próximos da zona de instabilidade.
Esse cenário, segundo ele, leva governos da região a buscar formas de reduzir sua exposição e evitar envolvimento mais profundo nas consequências do conflito.
"Polônia, Hungria, República Tcheca ou Romênia seguem caminhos semelhantes: tentar não ser arrastados para a dinâmica impulsionada pela corrente dominante europeia", resume.
Nesse contexto, Lukianov descreve o surgimento de uma espécie de "coalizão dos relutantes", países que, ainda que de formas diferentes, tentam evitar um alinhamento automático com a linha mais dura da União Europeia em relação à Rússia.
O resultado eleitoral na Bulgária, segundo ele, se encaixa nessa tendência.
Para o analista, trata-se de um "instinto de sobrevivência" que começa a se manifestar com mais clareza na região.