
Seis semanas de combustível: Alemanha à beira do colapso?

A Alemanha entrou em um novo cenário de pressão sobre combustíveis após a decisão da Rússia, na quarta-feira (22), de interromper o transporte de petróleo do Cazaquistão via oleoduto Druzhba a partir de 1º de maio, em meio a tensões energéticas globais.
O vice-primeiro-ministro russo, Alexander Novak, afirmou que o fluxo será redirecionado para outras rotas. O petróleo cazaque vinha sendo enviado à Alemanha desde 2023 como alternativa ao fornecimento russo.
A refinaria de Schwedt, responsável por grande parte do abastecimento de Berlim, depende desse fluxo para cerca de 17% de sua demanda. Sem o volume do Druzhba, a operação pode cair abaixo de 60% da capacidade, nível considerado insuficiente para viabilidade econômica.
O envio de petróleo do Cazaquistão cresceu de 993 mil toneladas em 2023 para 2,1 milhões em 2025. Para 2026, a previsão era de 2,5 milhões de toneladas, com 730 mil já entregues no primeiro trimestre.

Apesar disso, o governo alemão afirmou que não há risco imediato de desabastecimento. A ministra da Economia, Katherina Reiche, citou rotas alternativas por portos como Gdansk e Rostock para manter o fluxo.
Ainda assim, a capacidade dessas rotas é inferior. Enquanto o Druzhba operava com até 240 mil barris diários, o sistema alternativo via Polônia transporta cerca de 150 mil barris por dia.

O cientista político alemão Frank Umbach classificou como "questionável quão rápido se pode substituir o petróleo cazaque", enquanto o economista Andreas Löschel defendeu que "se examinem rapidamente alternativas".
Pressão no mercado de querosene
A situação também atinge o combustível de aviação. A Associação Internacional de Transporte Aéreo (IATA) alertou para risco de cancelamentos de voos na Europa a partir do fim de maio, caso persistam as falhas no abastecimento.
A Lufthansa já cortou 20 mil voos de curta distância até outubro para economizar cerca de 40 mil toneladas de combustível. O preço do querosene dobrou desde o início do conflito no Oriente Médio.

A Alemanha consome cerca de 9 milhões de toneladas de querosene por ano, mas produziu 4,8 milhões recentemente, com parte destinada à exportação. O país depende mais de importações externas nesse segmento do que em gasolina e diesel.
Reservas estratégicas somam cerca de 1 milhão de toneladas, volume suficiente para aproximadamente seis semanas sem produção adicional, segundo a Associação Alemã de Armazenamento de Petróleo.
Mesmo com as garantias do governo alemão, a combinação de restrições no fornecimento de petróleo e pressão no mercado de querosene mantêm o risco de instabilidade energética no curto prazo.
"Talvez tenhamos cerca de seis semanas de combustível de aviação disponível", alertou o diretor da Agência Internacional de Energia, Fatih Birol. "Esta é a maior crise energética que enfrentamos".
Birol também projetou impactos globais, estimando preços mais altos de gasolina, gás e eletricidade, alarmando que "nenhum país é imune a esta crise".

