Qual é futuro da trégua entre EUA e Irã?

Um dos principais problemas é que o governo dos Estados Unidos carece de uma estratégia clara e unificada para negociar com o Irã, segundo o politólogo russo Georgy Bovt.

O politólogo e jornalista russo Geory Bovt afirmou em um artigo publicado nesta segunda-feira (20) pela mídia russa que o futuro do acordo entre os Estados Unidos e o Irã é incerto — o mais provável é uma prorrogação, e não um acordo definitivo — porque o processo de paz está paralisado devido ao caos interno no governo americano, enquanto a República Islâmica aproveita essa fraqueza para manter uma estratégia de "tensão controlada".

O analista destaca que, embora a primeira rodada de negociações entre Washington e Teerã em Islamabad tenha terminado sem resultados tangíveis, ambas as partes estão interessadas em negociar. No entanto, a trégua de duas semanas, que expira oficialmente em 22 de abril, está vacilante devido à falta de avanços e à recusa do Irã em confirmar sua participação em uma segunda rodada.

"Quais são as perspectivas de uma solução?", questiona o especialista.

Caos na tomada de decisões dos EUA

Na opinião do politólogo, um dos principais problemas é que o governo americano carece de uma estratégia clara e unificada para negociar com o Irã. O autor cita o jornal The Wall Street Journal, que aponta que o presidente dos EUA, Donald Trump, não pode cumprir suas ameaças de destruir a civilização iraniana. Portanto, segundo Bovt, tais declarações não passam de "uma improvisação não coordenada com sua equipe de segurança nacional".

O analista indica que Trump parece tentar parecer um pouco perigosamente louco como forma de pressão, mas, ao mesmo tempo, recusou-se a capturar a ilha de Kharg — fundamental para o petróleo iraniano — por medo de grandes perdas. Nesse sentido, ele conclui que o presidente aparece como um líder que deseja um acordo rápido, teme o aumento do preço da gasolina e a reação dos mercados, e está cercado por uma equipe que controla o fluxo de informações para evitar seus impulsos.

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Isso não é força na posição de negociação. É um caos no nível da tomada de decisões.

A isso soma-se a composição da delegação norte-americana — liderada pelo vice-presidente J.D. Vance, pelo enviado especial de Trump, Steve Witkoff, e pelo assessor Jared Kushner, cada um representando interesses diferentes — que "não é o resultado de um processo interinstitucional consensual", mas sim o produto do choque entre vários centros de influência. Assim, Bovt conclui que a postura de Washington nas negociações "pode mudar até mesmo durante uma mesma rodada, dependendo de para quem Trump tenha ligado por telefone pela última vez".

A posição de Teerã

De acordo com a análise, a estratégia da República Islâmica "é determinada pelo seu potencial militar e econômico ainda existente". O jornalista cita dados do Pentágono, segundo os quais o Irã está longe de entrar em colapso. "O país conservou mais de 60% de seus lançadores de mísseis, mais de 70% de suas reservas de mísseis, bem como mais de 40% de seus drones de ataque", esclarece.

Nesse sentido, ele destaca que a liderança iraniana acredita em sua capacidade de continuar a guerra por pelo menos mais seis meses, "especialmente levando em conta a pressão que pode exercer sobre a economia mundial por meio de ataques contra os países produtores de petróleo do Golfo". A isso se soma a ameaça dos houthis de fechar o estreito de Bab el Mandeb, ponto-chave na rota marítima mais curta entre a Europa e a Ásia, que passa pelo canal de Suez.

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Cenários possíveis

Diante da instabilidade da delegação dos Estados Unidos e do poder militar iraniano, Bovt aponta várias opções possíveis para Teerã. A mais provável é a estratégia de "tensão controlada": "prolongar as negociações e esperar que os Estados Unidos suavizem sua posição sob a pressão das limitações políticas internas de Trump".

Em sua opinião, o segundo cenário consiste em "aceitar um acordo limitado sobre o programa nuclear em troca do levantamento das sanções e da abertura do estreito", enquanto a terceira opção é "o fechamento total de Ormuz, a intensificação dos ataques houthis, ataques diretos contra bases americanas na região — e os ataques de retaliação dos Estados Unidos". No entanto, o politólogo sugere que o Irã "preferiria evitar esse cenário".

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Previsão sobre as negociações

Quanto ao possível desenrolar da situação, ele explica: "A segunda rodada de negociações em Islamabad, ao que parece, será realizada. O Paquistão investiu demais nesse processo. Trump está preocupado demais com os preços da gasolina e com a queda nas pesquisas de opinião para simplesmente 'escalonar' o conflito. O Irã não quer chegar à destruição de sua infraestrutura".

No entanto, ele afirma que "é improvável que uma nova rodada traga um acordo definitivo" e prevê que "ela terá como objetivo principal prorrogar a trégua e aproximar as posições sobre a questão nuclear".

Da mesma forma, Bovt considera a possibilidade da assinatura de um acordo parcial que consiste em "descongelar parte dos ativos iranianos e abrir o Estreito de Ormuz em troca da suspensão do bloqueio americano — mas sem resolver a questão nuclear". Porém, em sua opinião, essa é a opção menos desejável para Trump, já que "não elimina nenhuma das principais contradições e garante o retorno à crise em poucos meses".