O governo dos Estados Unidos enviou um recado ao presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, sobre uma "ofensiva" contra as facções Comando Vermelho (CV) e Primeiro Comando da Capital (PCC), informou o portal Metrópoles nesta sexta-feira (17). Em reunião com o dirigente brasileiro, autoridades norte-americanas indicaram que Washington pretende avançar na classificação dos grupos como organizações terroristas.
De acordo com o portal, o Departamento de Estado argumenta que as facções movimentam grandes quantias por meio de lavagem de dinheiro e que o endurecimento, com a nova classificação, ajudaria na "asfixia financeira" dessas organizações. A medida é discutida apesar da resistência do governo de Luiz Inácio Lula da Silva.
Ainda segundo o Metrópoles, o aviso prévio foi tratado como uma "deferência" ao Brasil, já que nem todos os países recebem esse tipo de comunicação antecipada. O México, por exemplo, não teria sido informado antes de os EUA classificarem seis grandes cartéis como organizações terroristas.
Vale lembrar que a própria imprensa dos Estados Unidos reconhece que o PCC e o CV não desempenham papel relevante no envio de drogas aos país. Na avaliação do New York Times, as duas organizações atuam principalmente no envio de cocaína para a Europa e outras regiões. A motivação para a iniciativa é vista como política, e seria, segundo o jornal, articulada nos bastidores por Flávio Bolsonaro e Eduardo Bolsonaro.
Alertas para a soberania
Em março, o ministro das Relações Exteriores do Brasil, Mauro Vieira, observou que a classificação de organizações criminosas como terroristas por governos estrangeiros pode ter consequências diretas sobre a soberania brasileira.
"Pode inclusive justificar a intervenção militar em outro país. (...) Isso permitiria que o exército, as Forças Armadas, ou qualquer tipo de força americana, viesse ao território brasileiro, invadisse o território brasileiro para exterminar grupos terroristas, o que fosse", explicou para congressistas durante depoimento na Câmara dos Deputados.
Vieira enfatizou que o Brasil não pode aceitar esse tipo de enquadramento, tanto por razões legais quanto políticas. "Há um impedimento legal" e, além disso, "não podemos deixar que a soberania nacional esteja sob risco ou nas mãos de países estrangeiros", disse.