
Papa Leão XIV: o adversário que Trump não pode vencer

Pelo menos desde o século XIX, nenhum chefe de Estado havia se envolvido abertamente em um conflito com a figura papal. No entanto, nos últimos dias, o presidente dos EUA, Donald Trump, atacou em mais de uma ocasião o papa Leão XIV, chamando-o de "fraco" e "péssimo em política externa".
"Não quero um papa que critique o presidente dos EUA", afirmou o chefe da Casa Branca após os apelos à paz que o pontífice fez após as intervenções de Washington na Venezuela e no Irã.

Adversário invencível
Ao contrário de outras figuras com quem Trump já se deparou, o Papa está se mostrando um adversário verdadeiramente desafiador, segundo relatou o The Wall Street Journal na terça-feira (14). Até agora, em meio a essa disputa, é o presidente Trump — e não Leão XIV — quem tem recebido críticas tanto nos EUA quanto no resto do mundo.
Na opinião de Francesco Sisci, diretor do Instituto Appia, um centro de estudos geopolíticos em Roma, o obstáculo para Trump reside no fato de que o Papa, ao contrário de seu predecessor, Francisco, não age sozinho, o que dificulta isolar a figura do pontífice.
Francisco se caracterizou por fazer declarações polêmicas, com as quais ganhou popularidade entre os fiéis, mas com as quais também afastou vários grupos dentro da Igreja, incluindo os bispos americanos, segundo a publicação.
Enquanto isso, Leão XIV vem conquistando um amplo apoio dentro da Igreja em nível internacional, combinando a defesa da paz e do diálogo com uma ênfase maior nas doutrinas católicas tradicionais.
"Ele é sistemático e metódico, atua nos bastidores e, quando fala, sua palavra é definitiva", afirmou Sisci. "Francisco era uma estrela de rock, mas Leão é o maestro de uma orquestra", acrescentou, conforme consta no artigo do The Wall Street Journal.
Uma "bênção" para a Igreja
Vários especialistas sustentam que a crescente desordem na política mundial é uma oportunidade para a Igreja Católica restaurar sua posição como autoridade moral, após ter enfrentado, durante anos, escândalos de corrupção e abuso sexual.
Para o Papa, "isso é simplesmente uma grande bênção", disse Sisci. "É maravilhoso para a Igreja, em todo o mundo, que ele seja a pessoa capaz de enfrentar Trump."
Mais popular em casa
De acordo com as últimas pesquisas, nos EUA, o Papa é consideravelmente mais popular do que Trump, que estaria quase 50 pontos atrás do pontífice.
"Talvez o presidente Trump esteja com inveja do papa Leão XIV, porque é uma surra. É uma surra!", sugeriu Harry Enten, analista da CNN, referindo-se aos resultados obtidos em março. "Acho que o presidente Trump está cometendo um erro enorme ao ir contra a pessoa mais popular dos EUA", acrescentou.
O voto católico
Analistas de política e religião dos EUA indicam que as disputas entre a Casa Branca e o Vaticano acarretam em riscos para ambas as partes, mas destacam que, para o presidente Trump, o risco é maior.
As violentas batidas contra migrantes realizadas pelo Serviço de Imigração e Controle de Alfândega (ICE, na sigla em inglês), que afetaram particularmente os católicos latinos e foram criticadas pelo Papa, podem acabar custando aos republicanos as eleições intermediárias de novembro.
Os católicos, que representam cerca de um quinto dos eleitores, costumavam se dividir aproximadamente em partes iguais nas eleições presidenciais, mas cerca de 56% deles apoiaram Trump nas últimas eleições, em comparação com os 42% que apoiaram Kamala Harris, lembrou Ryan Burge, politólogo da Universidade de Washington em St. Louis.
No entanto, Burge ressalta que, nos últimos dias, muitos dos eleitores católicos estão reagindo de forma menos favorável a Trump e questionando seus ataques ao Papa.
"Isso colocou alguns de seus mais fortes apoiadores em uma posição muito incômoda", adverte Robert Sirico, do Instituto Acton para o Estudo da Religião e da Liberdade, em Michigan.
Para muitos fiéis, sua fé tem implicações para a política pública, desde o aborto até a guerra e a paz. "A função da hierarquia eclesiástica é formar a consciência das pessoas, na medida do possível, de acordo com o Evangelho. Quando necessário, temos que falar a verdade ao poder", afirmou o cardeal Michael Czerny.


