Embora o Irã não tenha saído ileso da agressão conjunta dos EUA e de Israel, conseguiu algo politicamente decisivo: não foi derrotado, manteve sua capacidade de resposta e obrigou seus rivais a buscar uma saída, de acordo com artigo do presidente do Centro de Estudos do Oriente Médio de Moscou, Murad Sadygzade, publicado nesta segunda-feira (13) na RT.
O politólogo argumenta que Teerã surge como o "verdadeiro vencedor" desta fase do conflito. Sadygzade comenta que a República Islâmica "absorveu o golpe, respondeu com força, rejeitou a capitulação" e "conseguiu alterar a própria lógica de uma guerra que lhe foi imposta".
Enquanto EUA e Israel esperavam estabelecer as regras do conflito e apresentar qualquer recuo iraniano como prova de sua superioridade, aconteceu o contrário. O Irã não apenas rejeitou as condições impostas pelo exterior, mas elevou o custo do confronto a ponto de transformar a campanha militar em um fardo político para Washington.
"Esse fato é cada vez mais visto como um sinal de que, mesmo em condições de esmagadora superioridade tecnológica e militar, os EUA já não conseguem transformar automaticamente uma campanha de ataques na rendição de seu adversário", acrescenta o analista.
Sadygzade destaca que "o Irã não é invulnerável, mas tem se mostrado extremamente difícil de ser derrotado".
"Sua liderança permaneceu no lugar, o sistema estatal não se desintegrou, sua capacidade de retaliação não foi reduzida à irrelevância e, ao que tudo indica, sua influência sobre o ambiente estratégico em torno do Golfo Pérsico e do Estreito de Ormuz permaneceu intacta", completa.
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Sobrevivência política de Trump
Por isso, "a reviravolta abrupta" do presidente dos EUA, Donald Trump, ao anunciar um cessar-fogo logo antes do término de seu próprio ultimato, parece menos um gesto seguro de um vencedor e mais uma "manobra forçada de um líder que buscava urgentemente uma saída de uma situação cada vez mais perigosa".
O ambiente é de incerteza militar, inquietação entre seus aliados, nervosismo nos mercados, alta do petróleo, risco de ataques contra bases e instalações americanas na região, novas baixas e um custo político interno crescente.
Para Trump, uma guerra prolongada com o Irã poderia rapidamente se tornar um teste de sobrevivência política, afirma o autor. "Para um presidente determinado a parecer forte e eficaz, há poucos desfechos mais perigosos do que ser visto como o líder que arrastou o país para outra guerra sem nenhum caminho claro para um resultado estratégico", analisou.
O politólogo explica que, nos Estados Unidos, um cenário como esse provocaria acusações de imprudência, perda de controle e "a transformação da fanfarronice teatral em um beco sem saída que custaria caro".
"Isso, muito provavelmente, foi uma das principais razões pelas quais a Casa Branca se viu obrigada a passar da retórica maximalista para o cessar-fogo", uma medida que Washington tenta apresentar como base para uma futura distensão e como prova de que a pressão reabriu espaço para a diplomacia.
Um Irã "inabalável"
No entanto, "os arquitetos da campanha" contra Teerã não conseguiram derrubar a República Islâmica. "Pelo contrário, ela respondeu não apenas militarmente, mas também nos planos político e psicológico".
A agressão externa fortaleceu a coesão interna, impulsionou uma ampla mobilização e consolidou a ideia de que estava em jogo a sobrevivência do país.
"Essa é uma das razões mais importantes pelas quais o Irã aparece agora, aos olhos de muitos observadores externos, como o vencedor da fase atual", afirma o analista.
Nesse sentido, os EUA e Israel conseguiram "o oposto do que talvez pretendessem". Apesar das perdas iranianas e do risco de uma nova escalada, politicamente, Teerã saiu fortalecida da guerra, ressalta o politólogo.
"Na política internacional, não importa apenas quem sofreu mais destruição, mas quem não pôde ser subjugado: o Irã não foi reduzido a um objeto passivo da vontade alheia, mas, pelo contrário, conseguiu tomar a iniciativa política", destaca.
Da mesma forma, Sadygzade ressalta que "se uma parte inicia uma guerra esperando forçar a capitulação da outra e acaba recorrendo à mediação e negociando os termos do diálogo, então seu plano original já fracassou".
Por isso, o atual cessar-fogo não é visto como "uma vitória do poderio norte-americano, mas como uma prova de seus limites", enquanto o mundo pôde ver que o Irã, embora "gravemente ferido", continua sendo "muito difícil de quebrar". "E essa, hoje, é a principal razão pela qual ele parece ser o verdadeiro vencedor", conclui o politólogo.