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Estados Unidos atingiram os limites do seu poder

"Eles terão que negociar com os iranianos. E a grande questão é o que exatamente Teerã pretende alcançar", disse Fyodor Lukianov, editor-chefe da Russia in Global Affairs.
Estados Unidos atingiram os limites do seu poderGettyimages.ru / Getty Images / Chip Somodevilla

O presidente americano Donald Trump anunciou o início de uma nova "era de ouro" no Oriente Médio após anunciar um cessar-fogo com o Irã.

A guerra, pelo menos por enquanto, foi suspensa. E embora previsões sejam sempre arriscadas com esta Administração norte-americana, existe pelo menos uma chance de que os combates não sejam retomados imediatamente, disse Fyodor Lukianov, editor-chefe da Russia in Global Affairs, em um artigo publicado em 8 de abril.  

Uma guerra prolongada aumentaria os riscos para todos, mas sobretudo para Washington. Diante de uma resistência rígida e obstinada, os EUA recuaram, embora nenhuma das exigências feitas no início dos ataques e ouvidas até ontem tenha sido atendida, escreve o autor. 

Este conflito armado é certamente um marco na transformação internacional, mas não é o seu fim – nem em geral, nem no impasse do Oriente Médio.

As táticas de Teerã funcionaram

O Irã demonstrou resiliência, refutando completamente a premissa com a qual os Estados Unidos e Israel iniciaram a operação: a de que bastaria um forte impulso para que o regime entrasse em colapso.

As táticas de Teerã funcionaram — atacar todos os interesses do inimigo (não apenas alvos militares), criando uma situação incontrolável. A resiliência dos Estados Unidos, e especialmente a de seus parceiros regionais, é limitada.

Contudo, o chamado "Eixo da Resistência", as forças pró-Irã na região, demonstraram resiliência, mesmo que Israel parecesse ter infligido danos irreparáveis ​​a elas nos últimos dois anos.

Esses grupos no Líbano, Iêmen e Iraque, embora não tenham participado ativamente dos combates (apenas o Hezbollah lançou ataques sérios), ao menos aumentaram a tensão, obrigando os atacantes a viverem em constante alerta.

"Eles terão que negociar com os iranianos. E a grande questão é o que exatamente Teerã pretende alcançar. A política anterior de expansão regional levou aos choques dos últimos anos", diz Lukianov.

Segundo o analista, o Irã, de fato, tem uma nova liderança, embora não esteja claro de que tipo. E ela definirá seu rumo futuro, avaliando o que é viável e desejável.

Os Estados Unidos perceberam seus limites. E todos os outros também

A aposta dos EUA, que foi o foco principal após a Guerra Fria, e a política de apaziguamento com Israel, o tema central da última década, fracassaram. Os líderes dos países árabes ricos não farão mudanças drásticas; não é do seu estilo. Mas a busca por novos apoiadores na China, no Sul da Ásia, na Rússia e, em certa medida, na Europa, está se intensificando.

Precedente estabelecido

O impacto desses eventos na situação interna dos Estados Unidos ficará claro com o tempo. As declarações de Trump parecem pouco convincentes, mas a situação econômica americana terá um papel decisivo.

Se a situação se normalizar rapidamente, a Casa Branca tentará fingir que nada aconteceu, e o presidente alegará ter evitado outra catástrofe global.

Em suma, o resultado é claro. Os EUA não são onipotentes; sua capacidade de impor sua vontade por quaisquer meios — militares ou econômicos — é significativa, mas limitada.

Todos — amigos e aliados, assim como inimigos e adversários — tirarão conclusões disso.

O Irã é claramente um caso muito especial, mas um precedente foi estabelecido. E este é mais um passo rumo a um mundo completamente diferente.