Iraque elege presidente curdo após cinco meses de impasse político

Nizar Amidi, ex-ministro do Meio Ambiente e assessor presidencial por quase duas décadas, venceu com a vasta maioria dos votos.

O Parlamento do Iraque elegeu, no sábado (11), o político curdo Nizar Amidi para a presidência da República, encerrando um bloqueio institucional que se arrastava há cerca de cinco meses desde as eleições de novembro. As informações foram divulgadas pelo jornal catari Al Jazeera.

Amidi obteve 227 votos no segundo turno de votação. Seu único concorrente, o candidato independente Muthanna Amin Nader, alcançou somente 15.

A seleção se enquadra ao sistema de partilha de poder vigente desde a invasão americana de 2003. Segundo esse sistema, reserva-se a presidência a um curdo, o cargo de primeiro-ministro a um árabe xiita e a presidência do Parlamento a um árabe sunita.

A Constituição iraquiana exige que o presidente seja eleito em até 30 dias após a primeira sessão do parlamento, mas o processo foi emperrado pelo impasse entre os dois principais partidos curdos, o PDK e a UPK, que não conseguiam convergir em torno de um candidato único à presidência.

O processo, ademais, ocorreu em meio a turbulências provocadas pelo conflito entre Estados Unidos, Israel e Irã, interrompida pelo cessar-fogo anunciado na terça-feira (7). Durante as agressões, o território iraquiano foi palco de confrontos entre grupos armados e militares iraquianos.

Desde o fim de fevereiro, mais de 500 ataques foram registrados contra alvos dentro do Iraque ou disparados a partir de seu território, majoritariamente atribuídos a facções aliadas ao Irã, incluindo bases e instalações diplomáticas americanas. A pressão de Washington sobre o processo de formação de governo ficou evidente ao final de janeiro, quando Trump ameaçou retirar o apoio ao Iraque caso Nouri al-Maliki, visto como próximo ao Irã, fosse designado primeiro-ministro.

Poucos dias depois do início do conflito com o Irã, a coalização xiita recuou e retirou a candidatura de Maliki. Nesse ambiente de pressões cruzadas, analistas apontam que a eleição de um presidente moderado e com trânsito entre diferentes polos de poder se tornou uma pauta que culminou na escolha de Amidi.

Perfil político

Nascido em 1968 no norte do país, Amidi construiu uma trajetória marcada pela discrição e pela habilidade de articulação nos bastidores do poder, de acordo com a biografia publicada pelo jornal turco Anadolu Ajansi.

Entre 1993 e 2003, ele ocupou a posição secretário-geral da União Patriótica do Curdistão, um partido de orientação nacionalista e social-democrata, fundado em 1975. Por quase duas décadas, ele assessorou três presidentes — Talabani, Masum e Salih — no Palácio da Paz, em Bagdá, após a queda de Saddam Hussein. Sua carreira o tornou referência em gestão de crises constitucionais e na delicada mediação entre o governo federal e as organizações curdas.

Em seu primeiro discurso diante do Legislativo, o novo chefe de Estado reconheceu a magnitude dos desafios à frente e se comprometeu a atuar em conjunto com os três poderes, adotando como lema a expressão "Iraq First" ["Iraque em primeiro lugar"], remanescente do lema de campanha de Donald Trump para a presidência dos EUA.

Com a posse, Amidi tem 15 dias para incumbir o representante do maior bloco parlamentar de compor um gabinete, uma tarefa considerada politicamente mais complexa do que a própria eleição presidencial.