Crise no Haiti se aprofunda com alta nos combustíveis em meio à guerra no Irã

O país enfrenta protestos e medidas de austeridade, enquanto milhões seguem em insegurança alimentar e gangues restringem o acesso ao abastecimento.

A campanha militar dos EUA e de Israel contra o Irã continua a provocar repercussões globais. Do outro lado do mundo, uma escalada nos preços do petróleo no Haiti, nação mais pobre do hemisfério ocidental, está agravando a crise humanitária no país entre fome e protestos, divulgou a análise publicada neste domingo (12) pela mídia americana AP News.

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Entre o fim de março e o início de abril, o governo provisório do premiê Alix Didier Fils-Aimé anunciou uma série de medidas de austeridade e reajustes de 37% no diesel e de 29% na gasolina, em resposta direta às pressões do mercado energético global decorrentes do conflito no Oriente Médio.

O efeito de instabilidade nas cadeias globais de suprimeitos está afetando diretamente o abastacimento haitiano, encarecendo o transporte e forçando milhões de pessoas já subnutridas a reduzir ainda mais suas refeições.

reação popular veio nas ruas na última segunda-feira (6), segundo o jornal The Haitian Times. Motoristas de mototáxis e do transporte coletivo interditaram com pneus em chamas as principais vias da capital, Porto Príncipe, nos bairros de Delmas e Pétion-Ville, forçando passageiros a desembarcar e paralisando boa parte da cidade.

"As famílias que já gastam a maior parte de sua renda com alimentos enfrentarão escolhas impossíveis", declarou Allen Joseph, gerente de programas da ONG internacional Mercy Corps no Haiti.

"Esta não é uma inflação abstrata. [...] Ela afetará diretamente a sobrevivência", alertou.

Crise profunda

O agravamento econômico se soma a um cenário de instabilidade estrutural que, em relatório de janeiro de 2026, a ONU descreveu como resultado do controle de gangues sobre vastas porções do território, do deslocamento de mais de um em cada dez haitianos e do fechamento de 1.600 escolas ao longo do ano letivo anterior.

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Dados do mais recente relatório da ONU, abarcando o período de fevereiro a março de 2026, apontam que mais de 5,7 milhões de haitianos enfrentavam insegurança alimentar severa, quadro propenso a se deteriorar com a nova pressão sobre o poder de compra.

As informações da organização apontam que o Plano de Resposta ao Haiti conta com apenas 19,5% de seu financiamento assegurado — US$ 172,1 milhões dos US$ 880,3 milhões necessários —, enquanto 1,45 milhão de pessoas permaneciam internamente deslocadas, sobretudo pela violência armada.

Segundo o representante do Programa Mundial de Alimentos da ONU no país, Erwan Rumen, a situação coloca uma parcela extremamente vulnerável da população "à beira do colapso completo", agravada pelo fato de que as gangues controlam estradas e dificultam a distribuição de alimentos.