A primeira instalação de descarte permanente de lixo nuclear no mundo começará a funcionar na Finlândia, informou nesta sexta-feira (10) a agência AP, que visitou as instalações. Localizada no subsolo da ilha isolada de Olkiluoto, em meio a uma densa floresta, a construção de Onkalo (que significa "caverna" em finlandês) teve início em 2004.
O projeto custou 1 bilhão de euros (cerca de R$ 6,20 bilhões) e está a alguns meses de conseguir a licença de funcionamento.
Ele se situa perto de três das cinco usinas nucleares que existem na Finlândia. A localização foi escolhida por sua rocha matriz de migmatito-gnaisse, conhecida por ter alta estabilidade e baixo risco de terremotos, de idade estimada em 1,9 bilhão de anos.
"O importante é o isolamento da civilização e da humanidade na superfície", explicou o geólogo Tuomas Pere à reportagem. "Podemos descartar o lixo com mais segurança do que armazená-lo em instalações localizadas acima da terra", acrescentou.
A ideia é usar maquinário não tripulado em uma usina de encapsulamento próxima para selar o lixo nuclear em recipientes de cobre dentro de túneis que ficam a mais de 400 metros de profundidade, tudo isso preenchido por camadas de argila bentonítica, que absorve água.
Segundo a reportagem, a Onkalo, financiada por empresas finlandesas de energia nuclear, será capaz de armazenar até 6,6 mil toneladas de resíduos.
Esse descarte será administrado por uma empresa chamada Posiva, que desenvolveu os recipientes para que permaneçam selados "por tempo o bastante para que a radioatividade do combustível irradiado decaia a um nível que não seja danoso ao ambiente", segundo a companhia.
"Opção menos pior"
Um relatório de 2022 da Agência Internacional de Energia Atômica revelou que quase 400 mil toneladas de combustível irradiado foram produzidas em todo o mundo desde os anos 1950. Ainda de acordo com o relatório, dois terços de todo esse lixo nuclear permanecem em armazenamentos temporários, e um terço é reciclado em um processo complexo.
A ideia de iniciativas como Onkalo e de outras instalações do tipo (como uma sueca que começou a ser construída em 2025 e uma francesa que ainda está em fase de projeto) é tornar esse descarte mais seguro para o planeta.
A proposta de soluções como Onkalo é armazenar o lixo até que a instalação seja selada — o que está planejado para acontecer em 2120 no caso da finlandesa — e deixar que a radiação decaia com o tempo. Ainda assim, essa não é uma forma totalmente segura de lidar com esse tipo de resíduo, como explicou à reportagem o diretor de segurança de energia nuclear na organização norte-americana sem fins lucrativos Union of Concerned Scientists, Edwin Lyman.
"Na minha visão, não há uma boa opção para o descarte de lixo nuclear, mas é importante encontrar a opção menos pior e o descarte geológico, em geral, será a alternativa menos ruim dentre tantas opções, você sabe, ruins", explicou. Isso se dá pelo fato de não saberem se os recipientes de cobre serão corroídos pelo combustível nuclear ou se o processo será lento o suficiente para o nível de radiação cair antes que isso aconteça.
Apesar disso, Lyman disse que armazenar esse resíduo nuclear permanentemente no fundo da terra ainda é melhor que "deixá-lo na superfície para sempre", já que o material mantido acima do solo "está vulnerável à sabotagem".