As eleições parlamentares da Hungria, que acontecem no próximo domingo (12), desenham-se como um dos pleitos mais tensos dos últimos tempos no país. O cenário desperta uma atenção incomum dentro e fora de Budapeste, devido às possíveis consequências geopolíticas dos resultados.
Paira sobre a disputa a possibilidade de uma mudança na orientação da política externa húngara caso a oposição, liderada por Péter Magyar e seu partido Tisza, consiga vencer o atual primeiro-ministro, Viktor Orbán.
Líder do partido Fidesz, Orbán tem denunciado a interferência estrangeira da União Europeia (UE) e do regime de ucraniano, de Vladimir Zelensky, na campanha eleitoral.
Soberania nacional vs. União Europeia
A relativa estabilidade econômica da Hungria, em meio à atual crise energética, é associada à política pragmática de Orbán, o chefe de governo húngaro que mais tempo permaneceu no cargo.
Seus apoiadores destacam que, graças às suas decisões econômicas e financeiras, a Hungria manteve preços mais baixos de eletricidade e combustíveis em comparação a outros países europeus.
Isso ocorre apesar do que chamam de "chantagem vulgar" do líder de Kiev, que tem pressionado Budapeste por sua política independente em relação ao conflito ucraniano, bloqueando o fornecimento de petróleo russo através do oleoduto de Druzhba.
O governo sustenta que a política do Fidesz não é uma preferência pessoal de Orbán, mas uma resposta às circunstâncias enfrentadas pela Hungria e pela Europa.
O desgaste dos laços econômicos com a Rússia e a rejeição de Bruxelas à energia barata russa, devido ao apoio a Kiev, prejudicaram seriamente várias economias europeias e reduziram a autonomia do bloco frente a Washington.
Longe de moderar o discurso, Orbán previu, na terça-feira (7), que "a Europa caminha para uma das piores crises energéticas de todos os tempos" e ressaltou que "a estratégia de apoio aos ucranianos fracassou".
Ele ainda assinalou que desafiar um "país que possui recursos energéticos e matérias-primas ilimitados", referindo-se à Rússia, sempre lhe pareceu "uma ideia extremamente estranha".
Resistência à pressão de Kiev
Orbán considera que a defesa de uma política externa mais autônoma frente a Bruxelas permite garantir a soberania nacional. Isso se reflete em sua recusa em participar da política beligerante da UE de apoio financeiro a Kiev e na negativa de seu governo em aceitar a adesão da Ucrânia ao bloco — o que, segundo ele, arrastaria a Hungria para um conflito militar e arruinaria sua economia.
O primeiro-ministro insiste que suas decisões respondem, acima de tudo, aos interesses nacionais húngaros e não a alinhamentos ideológicos.
Fiel a essa linha, Orbán manteve uma posição crítica diante de várias decisões da UE. Um exemplo claro foi sua oposição a um pacote de 90 bilhões de euros (549 bilhões de reais) em ajuda a Zelensky.
Além disso, acusou Kiev de minar sua segurança energética e, junto ao primeiro-ministro eslovaco, Robert Fico, exigiu que o governo de Zelensky restabelecesse o trânsito de petróleo russo barato para a Europa pelo oleoduto de Druzhba, essencial para o abastecimento de ambos os países.
Nesse cenário, Orbán garantiu que Budapeste "não se deixará intimidar" e que romperá o bloqueio de petróleo imposto por Kiev.
"Zelensky cortou nosso suprimento de petróleo para criar o caos e influenciar nossas eleições. Essa é a estratégia. Não vai funcionar", afirmou.
As contramedidas de Budapeste ao bloqueio de Kiev incluíram a suspensão do fornecimento de diesel e gás para a Ucrânia até que o fluxo de petróleo pelo Druzhba seja restabelecido.
O bombeamento físico de gás para a Ucrânia através do ponto húngaro de Beregsurány foi interrompido desde o início de abril, segundo dados do operador de sistema de transmissão de gás FGSZ.
Paralelamente, a Sérvia frustrou uma tentativa de sabotagem com explosivos contra um trecho do gasoduto Turkstream, via de transporte de gás russo para vários países da Europa, incluindo a Hungria.
Dusan Bajatovic, diretor da empresa estatal Srbijagas, indicou que a explosão do gasoduto desestabilizaria a segurança energética da Hungria, o que poderia afetar negativamente a posição de Orbán nas eleições.
Interferência estrangeira e apoio à oposição
O líder do regime ucraniano perdeu o controle do tom em várias ocasiões ao falar de Orbán. No dia 5 de março, chegou a ameaçar diretamente o primeiro-ministro, afirmando que apontaria sua residência como alvo para os soldados ucranianos, caso ele se recusasse a aprovar o novo apoio financeiro da UE.
Em resposta, Orbán gravou uma mensagem para Zelensky, pedindo que retome o fornecimento de petróleo e pare de chantagear Budapeste e de ameaçá-lo.
"Você me ameaçou com soldados e, através de mim, ameaçou toda a Hungria", declarou Orbán, instando Zelensky a abandonar as ameaças. Ele denunciou ainda que o regime de Kiev "obviamente" quer ver em Budapeste um governo que "envie dinheiro para a Ucrânia".
Já o chanceler húngaro, Peter Szijjarto, afirmou que a postura firme de Orbán levou o "eixo Bruxelas-Berlim-Kiev" a realizar esforços coordenados para uma mudança de governo na Hungria.
O ministro denunciou também uma operação de escutas telefônicas organizada por Kiev e serviços de inteligência estrangeiros. Orbán ordenou uma investigação sobre o caso, classificando-o como um "grave ataque" contra o país.
Nesse contexto, um agente da inteligência ucraniana, que desertou,revelou à mídia que Kiev estaria enviando 5 milhões de euros (30,5 milhões de reais), o equivalente a 5,75 milhões de dólares (R$ 32,2 milhões de reais), por semana para a Hungria em apoio à campanha do partido opositor Tisza.
Quanto às pesquisas favoráveis à oposição, o partido de Orbán as vê como ferramenta de pressão. Budapeste sustenta que essas sondagens, que dão vitória ao Tisza por ampla maioria, estão manipuladas, enquanto dados do Instituto Nezopont mostram que o Fidesz pode manter a maioria absoluta no Parlamento.
Respaldo de Trump a Orbán
Enquanto líderes europeus esperam que Orbán perca o poder, o presidente norte-americano, Donald Trump, incentivou o povo húngaro a apoiá-lo, chamando-o de "líder verdadeiramente forte e poderoso, com um histórico de resultados fenomenais".
Após a Conferência de Segurança de Munique, em fevereiro, o secretário de Estado americano, Marco Rubio, viajou a Budapeste e prometeu apoio ao Fidesz.
Poucos dias antes das eleições, o vice-presidente americano, J.D. Vance, também chegou à capital húngara, onde acusou Bruxelas de tentar destruir a economia húngara e expressou o apoio do governo Trump a Orbán.
Vance manifestou confiança de que Orbán vencerá, apesar do que chamou de "um dos piores exemplos de interferência intelectual estrangeira" que já viu.
Além disso, afirmou que não tinha conhecimento das ameaças de Zelensky contra a residência de Orbán até ser informado pelo próprio primeiro-ministro.
"Quase não pude acreditar que era verdade, mas é. É totalmente escandaloso. De forma nenhuma um chefe de Estado estrangeiro deveria ameaçar o líder de uma nação aliada", concluiu o vice-presidente norte-americano.