
EUA estariam usando ajuda humanitária como moeda de troca para exploração na África — WP

O sigilo que circunda acordos negociados pelo governo Trump com nações mais pobres alimenta receios de que bilhões de dólares para combate a doenças estejam sendo usados para conseguir concessões políticas aos EUA, revelou o jornal americano Washington Post na segunda-feira (6), citando especialistas.

Majoritariamente negociados com países africanos, os EUA firmaram 28 acordos com governos estrangeiros, cujos termos completos as autoridades dos EUA se recusaram a divulgar, rompendo com práticas anteriores de transparência.
Países em frustração
O sigilo desses entendimentos tem gerado insatisfação entre países parceiros, segundo a reportagem.
O Zimbábue interrompeu suas negociações após avaliar que as conversas "desequilibradas" ameaçavam sua soberania nacional, o que provocou o anúncio do encerramento gradual da assistência sanitária dos EUA ao país. Na Zâmbia, onde a assinatura era prevista para dezembro, as tratativas se tornaram alvo de denúncias de que os americanos condicionaram o envio dos recursos à exploração de minerais críticos, embora o Departamento de Estado negue tais acusações.
Documentos de cinco acordos — com Quênia, Uganda, Moçambique, Nigéria e Etiópia — foram publicados em um portal governamental em março, mas foram posteriormente removidos. O Departamento de Estado afirmou se tratar de uma "correção processual, não encobrimento", comprometendo-se a divulgar os termos apenas quando todas as negociações estiverem concluídas.
Falta de transparência
Especialistas alertam que a falta de transparência reforça percepções de que financiamentos tradicionalmente humanitários estão sendo utilizados como instrumento de coerção política. O grupo de vigilância governamental Public Citizen ingressou com uma ação judicial exigindo acesso aos acordos, alegando que a omissão do governo em atender solicitações via Lei de Liberdade de Informação é ilegal.
Segundo Peter Maybarduk, diretor do grupo, a divulgação pública é fundamental para compreender a nova arquitetura da ajuda externa e aquilo que os Estados Unidos "esperam ou extraem em contrapartida".

