Logo após o dia 28 de fevereiro de 2026, quando os primeiros bombardeios dos EUA e Israel atingiram o território iraniano, oitenta anos de arquitetura de segurança no Golfo Pérsico começaram a ser cobrados.
As bases militares que as monarquias da região haviam aceitado hospedar como garantia de proteção se tornaram o principal alvo iraniano — e o Estreito de Ormuz, por onde flui um quinto do petróleo mundial, se converteu em arma contra o próprio sistema financeiro que sustenta a hegemonia americana.
Os Estados do Golfo, reféns de um conflito que não escolheram, viram seus territórios transformados no campo de uma batalha cuja resolução escapa ao seu controle.
Uma reação coordenada garantiu inicialmente uma posição de neutralidade, por autopreservação, em simultâneo à aprovação de uma resolução da ONU condenando os ataques do Irã.
Porém, como destacou o Foreign Policy na terça-feira (7), a continuidade da guerra desgasta essa unidade, expõe contradições internas e amplia a vulnerabilidade indireta dos EUA, cada vez mais pressionados pelos custos políticos e financeiros da campanha militar.
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Historicamente, o maior benefício, para os EUA, de sua presença militar no Oriente Médio sempre foi a capacidade de obter acesso, instalações e autorizações de sobrevoo em territórios estratégicos.
Para os países anfitriões, porém, a equação sempre foi mais ambígua. Com exceção da Síria durante sua guerra civil, essa presença é autorizada pelos governos anfitriões — uma permissão que nunca esteve isenta de cálculo político.
As origens do arranjo
As raízes dessa presença remontam a 14 de fevereiro de 1945, quando o presidente Franklin Roosevelt e o rei saudita Abdul Aziz ibn Saud se reuniram a bordo do cruzador USS Quincy, no Canal de Suez.
Para além do registro de sua divergência sobre a eventual criação de um Estado judeu — que se formalizaria como Israel em 1948 —, o acordo ali firmado definiu um dos pilares estruturais da hegemonia dos EUA pelas próximas décadas e o modelo a ser replicado a outros Estados do Golfo, a partir da oferta de proteção militar americana ao reino em troca de acesso garantido ao petróleo saudita.
Embora os EUA não dependessem diretamente do petróleo do Oriente Médio àquela altura, ocupando a posição de maior produtor global pela exploração de suas próprias reservas nacionais, eles compreenderam que controlar essas reservas conferiria o poder de obstruir rivais.
Aos sauditas, atravessando a Guerra Fria Árabe com o Egito de Abdel Nasser nos anos 1950 e 1960, a base militar de Dhahran servia como símbolo da aliança ocidental frente à pressão do nacionalismo pan-árabe.
As contradições deste acordo cobraram seu preço já em março de 1961, quando Riad anunciou que o contrato militar não seria renovado, percebendo que a base representava um custo político insuperável.
Além do questionamento externo, a abertura aos militares americanos era atacada por frações internas sauditas que faziam coro com Nasser ao acusar a monarquia de corrupção e subserviência ao Ocidente, como uma traição à causa árabe.
A retirada britânica e a arquitetura petrodólar
A retirada britânica do Golfo demarcou um dos primeiros pontos de inflexão para a reavaliação da postura dos EUA. A antiga potência colonial da região finalizou seus protetorados, retirando suas tropas em 1971, conferindo independência aos Estados do Catar, Bahrein e Emirados.
A transformação abriu caminho para a aproximação dos EUA sob o presidente Richard Nixon e a replicação do modelo saudita de cooperação, em um momento que a produção nacional de petróleo norte-americano iniciava seu declínio.
A Doutrina Nixon foi desenvolvida e estabeleceu uma política de "pilares gêmeos" que delegava a segurança regional ao Irã do Xá Reza Pahlavi e à Arábia Saudita, apoiando as monarquias com armas e financiamento, evitando presença militar direta massiva.
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A relação atravessou dois eventos fundamentais do início dos anos 70: o "choque Nixon" de 1971, quando o presidente americano unilateralmente encerrou a conversibilidade da moeda americana em ouro; e o choque do petróleo de 1973, quando os países membros da OPEP decretaram um embargo petrolífero aos EUA em represália a seu apoio a Israel na Guerra do Yom Kippur, quadruplicando o preço do barril.
O sistema do petrodólar nasceu de 1974 quando Washington e Riad firmaram um acordo, mantido em sigilo até 2016, para harmonizar essa relação.
O acordo entre o Sheikh Faisal e Richard Nixon garantia que o petróleo fosse negociado em dólares e os superávits reciclados em títulos do Tesouro americano, em troca de proteção militar e vendas de armas. O entendimento desse encontro ditaria os próximos cinquenta anos do casamento conturbado entre as monarquias do Golfo e os EUA no centro do sistema internacional.
Ao incentivar o uso do dólar como moeda de troca do petróleo, o acordo criou demanda global obrigatória pela moeda americana e uma fonte perene de financiamento para os déficits fiscais dos EUA — incluindo o orçamento do Pentágono — e solidificou o interesse americano na segurança regional do Golfo.
Do colapso dos pilares às bases permanentes
A Revolução Iraniana de 1979 e o início da Guerra do Afeganistão naquele mesmo ano, porém, derrubaram um dos pilares da estratégia Nixon e forçaram uma resposta direta.
O presidente Jimmy Carter promulgou a Doutrina Carter em janeiro de 1980, declarando que qualquer tentativa de controle do Golfo seria considerada um ataque aos interesses vitais americanos, respondida com força se necessário. O compromisso se materializou na criação da Força de Implantação Rápida dos EUA, que viria a ser transformada no contemporâneo Comando Central (CENTCOM) em 1983, durante o governo de Ronald Reagan.
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Até a década de 90, porém, a estratégia americana privilegiou a discrição, ancorando-se em acordos de acesso a instalações e em pré-posicionamento de equipamentos, ao invés de se instalarem de modo permanente.
Os governos instáveis e recém-independentes do Golfo, navegando os problemas de uma cartografia de fronteiras definida por decretos europeus, dependiam da proteção contra ameaças externas, mas receavam consequências políticas internas de aliança tão estreita com Washington.
A primeira Guerra do Golfo (1990-1991) transformou definitivamente a natureza dessa presença, quando a invasão do Kuwait por Saddam Hussein justificou a necessidade de tropas estrangeiras. Após expulsar as forças iraquianas, os Estados Unidos estabeleceram sua rede permanente de bases e acordos de acesso em todo a região.
A 5ª Frota foi reativada em 1995 no Bahrein, enquanto bases aéreas no Catar e nos Emirados Árabes passaram a abrigar esquadrões de caças e bombardeiros.
Para lidar com a hostilidade simultânea do Irã e do Iraque na sequência destes eventos, os EUA estabeleceram uma política de "contenção dupla" contra ambos, uma vez que fomentar rivalidade entre eles havia se provado desastroso diante dos oito anos da guerra entre os dois países (1980-1988).
Para o Iraque, o conflito deixou uma economia destruída e dívidas bilionárias com os Estados do Golfo, empurrando Saddam Hussein para a invasão do Kuwait dois anos depois. Para o Irã, o conflito funcionou como uma segunda revolução, institucionalizando a Guarda Revolucionária como força militar e política central do Estado, e forjando uma cultura de resistência e autossuficiência. Contra os dois países, as pressões econômicas de sanções unilaterais foi acompanhada de uma presença robusta na região.
Os ataques de 11 de setembro de 2001 intensificaram a expansão, uma vez que a "guerra global ao terror" passou a garantir um pretexto sem precedentes para o reforço de garantias de segurança dos EUA na região.
A repercussão do atentado às Torres Gêmeas em Nova York centralizou do terrorismo como ameaça no Ocidente e garantiu o aprofundamento dos instrumentos americanos.
O principal exemplo foi a abertura das portas do sistema SWIFT — o centro logístico mundial de comunicações bancárias, sediado na Bélgica — ao governo americano, permitindo a identificação de movimentações financeiras ligadas a grupos terroristas e, eventualmente, a exclusão do sistema financeiro internacional, utilizada contra países "não-alinhados", como o Irã e a Rússia.
Acompanhando essa sofisticação da projeção americana, o Pentágono desenvolveu o esquema dos "lily pads" ["vitórias-régias"] como paradigma para os postos avançados das forças armadas: bases menores, discretas e politicamente menos custosas, construindo dezenas de instalações deste tipo desde 2000.
A arquitetura regional foi novamente modificada diante da invasão do Iraque em 2003, de modo a exacerbar a natureza energética, financeira e expansionista desse projeto. Sob a justificativa (falsa, como se sabe) de que o Iraque possuía armas de destruição em massa, a invasão visava claramente assegurar o controle sobre reservas petrolíferas, marcando um interesse de presença permanente em seu território, transformando o país em um canteiro de obras do Pentágono.
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A combinação da intervenção americana e da derrota de Saddam Hussein levaria ao empuxo das tropas americanas para fora da Arábia Saudita — novamente sob pressão doméstica pela hospedagem de militares americanos — realinhando o centro da órbita americana em direção à pequenas monarquias do Golfo, cultivando uma rede entre Catar, Bahrein e Emirados Árabes, menos carregadas de simbolismo religioso e mais dispostas a formalizar a parceria.
O dilema permanente
O Pentágono consolidou essa reconfiguração entre 2004 e 2008, ao passo que Kuwait, Catar e Bahrein expandiram suas instalações para apoiar as operações no Iraque.
A Base Aérea Al Udeid, no Catar, foi estabelecida como o principal centro logístico regional, enquanto a 5ª Frota Naval em Bahrein foi simultaneamente reforçada, consolidando o controle americano sobre as rotas marítimas do Golfo Pérsico.
O governo Obama representou uma mudança de tom e prioridades na projeção exterior dos EUA, delineando uma estratégia de redirecionamento do Oriente Médio em direção ao Pacífico que orientaria a estratégia do Pentágono para a rivalidade com a China.
Tropas americanas de combate foram oficialmente retiradas do Iraque em 2011; um realinhamento, contudo, que não se estendeu a um recuo estratégico na região em geral.
O vácuo deixado pelo colapso das estruturas do Estado iraquiano e a irrupção da Primavera Árabe naquele mesmo ano apenas reafirmaram, aos olhos de Washington, a necessidade das bases do Golfo como âncoras de estabilidade regional.
Em setembro de 2013, Obama declarou na Assembleia Geral da ONU que os EUA estavam "preparados para usar todos os elementos de seu poder, incluindo força militar", para garantir seus interesses no Oriente Médio, entre eles a proteção dos aliados e o livre fluxo de energia.
Os objetivos estratégicos fundamentais americanos no Golfo permaneciam inalterados, independente de quem ocupava o Salão Oval.
Quando o Estado Islâmico* emergiu em 2014 e capturou vastos territórios iraquianos e sírios, os EUA retornaram ao Iraque com a Operação Inherent Resolve, utilizando intensivamente as instalações no Catar, Kuwait e Emirados para conduzir sua campanha aérea.
Estratégias contingentes
Desde a revolução iraniana de 1979 e a subsequente Doutrina Carter, a presença americana na região em grande parte se desenhou como um cordão de contenção contra o Irã.
Embora o Acordo Nuclear de 2015 — o JCPOA — tivesse reduzido temporariamente as tensões, a lógica estrutural da estratégia americana permaneceu, o que ficou evidente com a retirada unilateral dos EUA do acordo em 2018.
O primeiro mandato de Donald Trump promoveu a estratégia de "pressão máxima" contra o país e acelerou o reforço das parcerias militares com sauditas e emiradenses.
Em 2019, ataques com drones e mísseis à infraestrutura petrolífera saudita, atribuídos ao Irã, expuseram a fragilidade do arranjo que seria explorada nos anos subsequentes.
O governo americano enviou 3 mil soldados adicionais e sistemas Patriot de interceptação de mísseis à Arábia Saudita, mas a resposta defensiva limitada sublinhou os constrangimentos operacionais e políticos da proteção americana.
A retirada do Afeganistão, em 2021, enfatizou a reorientação estratégica do Pentágono em direção ao Indo-Pacífico, combinada com a remoção de sistemas antimísseis da Arábia Saudita e o redirecionamento de recursos para pressionar a China.
Nas monarquias do Golfo, o gesto foi lido como sinal de abandono, borbulhando uma percepção que se aprofundaria nos anos seguintes com os ataques do Houthis do Iêmen sobre os Emirados e a Arábia Saudita e a incapacidade americana de garantir proteção efetiva.
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A Operação Guardião da Prosperidade, lançada em 2023 para proteger a navegação no Mar Vermelho após os ataques dos Houthis contra embarcações ligadas a Israel, custou cerca de US$ 7 bilhões aos cofres americanos.
Sequências de bombardeios e tentativas de decapitação das lideranças houthis, além disso, se provaram limitadas, levando à retirada dos EUA sem atingir seus objetivos de restauração da normalidade no estreito de Bab al-Mandeb ou de incapacitação do movimento iemenita — um prenúncio do que viria.
Uma rede de proteção enroscada
Os Estados do Golfo vêm há anos expressando preocupações sobre um possível agenciamento de interesses americanos, cultivando receios de que os EUA não são mais um aliado fiável.
O ataque conjunto americano-israelense ao Irã e a retaliação iraniana que se seguiu reforçaram a falta de confiabilidade e tornaram visível a contradição estrutural que a arquitetura de segurança havia ocultado por décadas.
A estratégia iraniana promoveu uma escalada deliberadamente assimétrica, combinando dois vetores simultâneos: a destruição da rede de projeção de poder americano na região e a asfixia econômica do adversário pelo controle do Estreito de Ormuz. Nos primeiros dias do conflito, mísseis e drones iranianos atingiram diversas bases americanas na região, incluindo a Al Udeid, no Catar, e o quartel-general da 5ª Frota, em Bahrein.
Segundo relatos divulgados pelo New York Times, a maioria das bases se tornou inoperável, forçando milhares de soldados americanos a se relocar para hotéis e escritórios civis.
A guerra passou a ser conduzida, em grande medida, a partir de instalações na Europa — Ramstein, na Alemanha, e RAF Fairford, no Reino Unido —, invertendo décadas de lógica de destacamento avançado.
Um segundo vetor da estratégia iraniana foi o fechamento seletivo do Estreito de Ormuz aos EUA, a Israel e aos países que apoiaram os ataques, mantendo passagens negociadas bilateralmente com países parceiros.
A manobra desmoralizou a premissa americana de que sua presença militar garantiria o livre fluxo de energia, além de paralisar as exportações de combustíveis dos países do Golfo e elevar seus preços no mercado internacional, rompendo os elos do ciclo do petrodólar.
Os países importadores de petróleo venderam títulos do tesouro americano para defender suas moedas, enquanto os exportadores do Golfo deixaram de acumular os dólares que alimentavam de volta o mercado de dívida dos EUA.
As monarquias da região passaram a examinar cláusulas de força maior para suspender compromissos prévios de investimento com os americanos e fundos soberanos árabes revisaram suas alocações.
Durante as últimas cinco semanas do conflito, as reservas mantidas no Federal Reserve [o banco central americano] de Nova York recuaram cerca de 82 bilhões de dólares (cerca de R$ 423 bilhões).
A capacidade de definir quem transita pelo principal corredor energético do mundo — e em qual moeda — consolida junto aos ataques a bases americanas uma equação de desmonte de uma arquitetura política de décadas.
Analistas apontam que, se o Irã consolidar a cobrança de pedágio pelas passagens e estabelecer as taxas em yuan ou euro, o efeito sobre a demanda global por dólares pode ser duradouro, provocando uma erosão estrutural do petrodólar.
Assim, a lógica da dissuasão militar por décadas justificou a presença das bases como um escudo insuperável que lubrificaria o fluxo comercial mundial.
A atual estratégia iraniana expõe e esgarça as contradições dessa estratégia. A rede construída para proteger o fluxo de petróleo em dólares e garantir a segurança dos parceiros do Golfo se tornou o próprio alvo, tornando parceiros dos EUA vulneráveis e os custos aos americanos tão grandes que a região — e o mundo — possivelmente não serão mais os mesmos.
*Reconhecido como grupo terrorista na Rússia e proibido em seu território.