O genocídio em Ruanda completa 32 anos em 2026, marcando um conflito que resultou na morte de 800 mil a 1 milhão de pessoas em 100 dias.
O extermínio sistemático vitimou principalmente o grupo étnico tutsi, que então compunha 14% da população, assassinados por extremistas hutus, que também alvejaram membros moderados de sua etnia, que representava os 85% restantes da população.
A violência foi alimentada por propaganda no rádio, listas de alvos e distribuição de armas brancas, como facões, transformando vizinhos em inimigos.
Raízes coloniais e divisões étnicas
As tensões étnicas se intensificaram na colonização belga (1916-1962), quando as autoridades concretizaram a classificação dos nativos. Os colonizadores estabeleceram a superioridade da etnia tutsi como norma, emitindo cartões de identidade étnica em 1933, institucionalizando assim a discriminação.
Após a independência em 1962, o presidente Grégoire Kayibanda, da etnia hutu, promoveu a doutrina política do "hutu power" (poder hutu), expulsando 400 mil tutsis para vizinhos Uganda e Burundi, com perseguições violentas em 1959, 1963 e 1973, que mataram milhares de pessoas. Em 1973, Juvénal Habyarimana tomou o poder por meio de um golpe, mantendo o regime hutu autoritário e formando o Movimento Republicano Nacional por Democracia e Desenvolvimento (MRND) como partido único.
Guerra civil e preparativos para o massacre
O governo Habyarimana treinou milicianos Interahamwe ("aqueles que atacam juntos"), recrutando jovens hutus radicalizados apoiadores do regime através de propaganda étnica. As milícias organizavam treinamentos militares e realizavam ataques violentos contra tutsis e opositores políticos.
Em 1º de outubro de 1990, a Frente Patriótica Ruandesa (FPR), fundada em 1987 por tutsis exilados, invadiu o território a partir de Uganda, iniciando a Guerra Civil Ruandesa.
Os acordos de paz de Arusha foram assinados em agosto de 1993, prevendo o estabelecimento de um governo de transição e sugerindo que o conflito tinha sido encerrado. A ONU, em 1993, estabeleceu uma missão no território ruandês, conhecida como UNAMIR (Missão de Assistência das Nações Unidas para Ruanda), buscando realizar esforços voltados à assistência humanitária e o apoio geral ao processo de paz, fiscalizando a implementação dos acordos.
No mesmo ano, porém, foi fundada a rádio RTLM (Rádio e Televisão Livre das Mil Colinas), um canal de transmissão de mensagens de escalada e provocação, emitindo chamados para "cortar as altas árvores", conclamando um expurgo da população tutsi. Enquanto isso, a implementação dos acordos de Arusha se arrastava, sob eventuais acusações de que extremistas hutus agenciavam o processo de paz em preparo de um extermínio.
Os 100 dias do horror
Às 20h30 de 6 de abril de 1994, o avião do presidente Habyarimana e do presidente burundês Cyprien Ntaryamira foi abatido por mísseis antiaéreos perto do aeroporto de Kigali, capital da Ruanda, levando o país para o caos.
Em 7 de abril, RTML transmitiu uma reportagem atribuindo a queda do avião à FPR e a soldados da ONU, incitando a eliminação da "barata tutsi". No mesmo dia, a guarda presidencial e Interahamwe mataram a primeira-ministra Agathe Uwilingiyimana, uma hutu moderada, e 10 soldados belgas da UNAMIR.
Outros líderes hutus moderados também foram assassinados, enquanto a Bélgica retirou o restante de suas forças. Até 21 de abril, houve 100 mil mortos. Estima-se que 800 mil pessoas tenham sido mortas até meados de maio. Em 100 dias do genocídio, quase 1 milhão de pessoas perderam suas vidas, segundo informações da ONU.
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Aponta-se que entre 150 mil e 250 mil mulheres foram vítimas de estupro durante os acontecimentos, muitas das quais teriam sido deliberadamente infectadas com o vírus HIV.
"No fundo do meu coração, sinto uma dor indescritível. Cresci como qualquer outra criança. Meus pais me criaram da maneira certa. Conheci um rapaz e, em 1993, nós firmamos uma união estável. O casamento na igreja estava marcado para 9 de abril de 1994. Mas ele nunca aconteceu, pois em 7 de abril de 1994 o genocídio começou", afirmou Berta, uma das sobreviventes.
Ainda em abril, diversos países solicitaram à ONU a retirada de suas tropas da missão humanitária, reduzindo a força da UNAMIR de 2.165 para 270 soldados. "A tragédia foi agravada pela resposta ineficaz da comunidade internacional", destaca a organização.
Depois de meados de maio, os assassinatos começaram a diminuir, com o FPR recuperando gradualmente partes significativas do país. Em 22 de junho, o Conselho de Segurança autorizou as forças lideradas pela França a realizar uma missão humanitária, denominada Operação Turquesa. A operação teria salvado centenas de civis no sudoeste do país, embora seja acusada de permitir que soldados, funcionários e milicianos envolvidos no genocídio fugissem de Ruanda.
Os assassinatos continuaram até 4 de julho de 1994, quando a FPR assumiu o controle militar de todo o território de Ruanda.
Julgamentos
O governo de Ruanda deu início aos julgamentos pelos crimes de genocídio no final de 1996. Em 2000, já havia mais de 100 mil suspeitos aguardando julgamento.
Internacionalmente, a ONU criou o Tribunal Penal Internacional para o Ruanda (TPIR) em 8 de novembro de 1994, vindo a indiciar 93 indivíduos que considerou responsáveis por graves violações do direito internacional humanitário. Dos 93 julgados pelo TPIR, 61 foram condenados até o encerramento das atividades do órgão em 2015.
Generais como Augustin Bizimungu, Augustin Ndindiliyimana e François-Xavier Nzuwonemeye foram condenados por comandar forças, pegando até 30 anos de prisão. Foram também condenados líderes ideológicos, como irmãos Protais Zigiranyirazo e Félicien Kabuga (financiador, foragido até 2020) que planejou o extermínio desde 1992, Georges Rutaganda (autoridade da Interahamwe) e Hassan Ngeze (jornal Kangura, que promoveu, em 1990, "Dez Mandamentos Hutus", manifesto que contém incitação ao ódio entre tutsis e hutus).
A ONU reconhece 7 de abril como Dia Internacional de Reflexão. Ainda em 2026, debates sobre justiça de transição persistem entre tensões no leste do Congo com a FDLR (ex-Interahamwe).