Trump tem cada vez menos opções para declarar vitória contra Irã, alertam especialistas

Segundo especialisas, o presidente dos EUA, apesar de falar em "mudança de regime" na guerra contra o Irã, entende que a situação não é favorável e busca desesperadamente uma saída aceitável.

Mais de um mês após o início dos ataques contra o Irã, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, continua proclamando vitória na guerra, afirmando em pelo menos 12 ocasiões que o conflito está prestes a terminar.

Na segunda-feira (30), o secretário de Estado, Marco Rubio, manteve o tom, declarando que todos os objetivos estão sendo alcançados "conforme ou antes do previsto" e podem ser completados em semanas. Trump vai além, alegando que já houve uma "mudança de regime" em Teerã e que Washington negocia com as "novas autoridades", o que foi veementemente negado pelo lado iraniano.

Em busca de uma solução aceitável

Para um número crescente de analistas, a realidade no terreno é diametralmente oposta ao que Trump afirma.

"O fato é que os iranianos têm um interesse profundo em que a guerra continue, porque está indo muito bem para eles. E quanto mais se prolongar, mais influência terão", avalia John Mearsheimer, professor da Universidade de Chicago. Mearsheimer acredita que Trump, apesar da retórica pública, entende que a situação não é favorável e busca desesperadamente uma saída aceitável.

Stephen Walt, professor de Harvard, explica que Teerã busca restabelecer a dissuasão. "Eles querem que os EUA paguem um preço suficientemente alto para que aprendamos a não fazer este tipo de coisa no futuro. E até que estejam confiantes de que restauraram a dissuasão, é provável que continuem com isso", afirma.

Ultimato sem efeito

Os ultimatos de Trump, como a ameaça de destruir a infraestrutura energética iraniana se o Estreito de Ormuz não for reaberto até 6 de abril, soam cada vez mais como um blefe. Um ataque à ilha de Kharg, por onde passa 90% das exportações de petróleo do Irã, seria um tiro no pé da economia global.

« ENTENDA A IMPORTÂNCIA DA "JOIA" PETROLÍFERA DO IRà»

"Por que, em nome de Deus, cortaríamos esse fluxo agora, quando provavelmente teria consequências econômicas desastrosas?", questiona Mearsheimer, lembrando que os próprios EUA suspenderam sanções ao petróleo russo e iraniano para evitar uma crise.

A opção por uma escalada terrestre é vista como um caminho sem saída, com riscos de se tornar um novo Iraque ou Vietnã. "Estamos falando de entrar em um país muito maior e mais populoso que o Iraque, com um terreno difícil, com cerca de 10 mil soldados de infantaria leve. É um argumento ridículo", afirmou.

"Ganhamos todas as batalhas no Vietnã; perdemos a guerra", lembrou Walt, afirmando que para o Irã este conflito é existencial, enquanto para os EUA é "opcional".

O que resta?

Restam a Trump poucas opções para encerrar o conflito e vendê-lo como vitória.

Walt sugere que o presidente poderia tentar se apegar à eliminação do líder supremo iraniano, Ali Khamenei, como prova de sucesso, mas duvida que tal decisão convença a opinião pública.

Mesmo nesse caso, o Irã ainda estaria no controle da situação, e os Estados Unidos só teriam que esperar que as exigências de Teerã não se revelassem excessivas.

"Acho que eles têm que esperar e, mais uma vez, cruzar os dedos, esperando que os iranianos não tentem muito mais, que finalmente se contentem em ter humilhado os Estados Unidos, em ter demonstrado nossa incapacidade de impor nossa vontade sobre eles, e que comecem a tentar restabelecer relações mais normais e, em seguida, reconstruir suas próprias capacidades para que possam ameaçar, de forma crível, fazê-lo novamente se os perseguirmos", conclui o especialista.