
Caso dos vírus furtados na Unicamp: o que já se sabe da investigação

A retirada de amostras de vírus de um laboratório da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) segue sob investigação e levanta questionamentos sobre os protocolos de controle em ambientes de biossegurança. As informações foram divulgadas pelo portal g1.
O caso envolve materiais sensíveis armazenados no Instituto de Biologia e mobilizou autoridades federais desde a comunicação do desaparecimento.
A apuração indica que os materiais foram retirados sem autorização no fim de fevereiro do Laboratório de Virologia e Biotecnologia Aplicada, estrutura classificada como nível de biossegurança 3 (NB-3), destinada ao manuseio de agentes infecciosos com potencial de causar doenças graves.
A investigação teve início após a própria universidade informar o desaparecimento das amostras. A partir disso, a Polícia Federal instaurou inquérito e realizou, em 23 de março, a prisão em flagrante de uma mulher suspeita de envolvimento no caso. Na mesma ação, foram cumpridos dois mandados de busca e apreensão expedidos pela 9ª Vara Federal de Campinas.
O material subtraído foi localizado durante as diligências e encaminhado ao Ministério da Agricultura e Pecuária para análise. As ações contaram com apoio técnico da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Segundo a investigação, parte das amostras não chegou a sair das dependências da universidade.

Entre as amostras estavam vírus como H1N1 e H3N2, associados à gripe tipo A, além de outros materiais de origem humana e animal. Também foram identificadas tentativas de descartar material biológico e de alterar rótulos e marcações para dificultar a identificação das amostras.
Segundo a Polícia Federal, os investigados podem responder por furto qualificado, fraude processual e transporte irregular de organismo geneticamente modificado, conforme o avanço das apurações.
A professora doutora Soledad Palameta Miller, da Faculdade de Engenharia de Alimentos da Unicamp, foi presa durante a operação e posteriormente liberada após audiência de custódia, passando a responder ao processo em liberdade. A defesa afirma que não houve irregularidade e sustenta que a docente utilizava a estrutura da universidade por não possuir laboratório próprio.
O marido da professora, Michael Edward Miller, também é investigado. Ele foi registrado por câmeras de segurança deixando o laboratório com caixas no período em que ocorreu a retirada dos materiais. A suspeita é de que tenha participado do transporte das amostras.
A Polícia Federal informou que não há indícios de que o material tenha sido utilizado para fins de disseminação ou que represente ameaça à população. A hipótese de uso com finalidade de bioterrorismo foi descartada. Segundo o delegado responsável, "não há nenhum indicativo" nesse sentido, e os elementos reunidos apontam para uma questão relacionada à pesquisa.
A Unicamp afirmou que o episódio foi um "caso isolado" e destacou que não havia organismos geneticamente modificados entre os materiais. A instituição também instaurou uma sindicância interna para apurar responsabilidades e eventuais falhas nos mecanismos de controle.
Ainda de acordo com a universidade, uma empresa associada ao marido da docente participa de um programa de incubação voltado a empreendimentos inovadores, com acesso restrito a espaço de escritório, sem envolvimento com atividades laboratoriais.
As investigações seguem em andamento e devem esclarecer a motivação da retirada das amostras, o percurso dos materiais dentro da universidade e o grau de participação dos envolvidos.
