Conheça o programa nuclear do Brasil e como sofreu sabotagens por parte dos EUA

Documentos revelados pela Wikileaks revelam pressões da AIEA e dos EUA para inspeções intrusivas em Angra, desafiando a soberania e decisões estratégicas brasileiras. Entenda o papel do "czar brasileiro da energia nuclear" nessa situação.

As primeiras iniciativas na área nuclear no Brasil surgiram ainda na década de 1930, mas o tema só passou a ganhar relevância estratégica após o fim da Segunda Guerra Mundial.

A explosão da bomba atômica em Hiroshima, em 1945, mudou a percepção global sobre o poder dessa tecnologia e despertou o interesse do governo brasileiro.

A energia nuclear deixou de ser apenas um campo científico e passou a ser tratada como questão de soberania nacional.

Estratégia e nacionalismo

Nos anos seguintes, o avanço do programa esteve fortemente ligado à atuação de militares, conforme artigo publicado pela Universidade Estadual de Londrina (UEL). 

O almirante Álvaro Alberto da Mota e Silva teve papel central ao defender a criação de uma estrutura nacional voltada à pesquisa científica e tecnológica, resultando na criação do Conselho Nacional de Pesquisa (CNPq), em 1951, um dos primeiros passos institucionais do setor.

Durante o governo de Juscelino Kubitschek, na década de 1950, o tema ganhou contornos mais nacionalistas.

O controle sobre recursos minerais estratégicos, como a areia monazítica, passou a ser tratado como prioridade, ao mesmo tempo em que foi criada a Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN), responsável por organizar e supervisionar o programa.

Entre 1959 e o governo de Jânio Quadros, no começo dos anos 1960, surgiram projetos para a instalação de um reator nuclear em Mambucaba, no litoral do Rio de Janeiro.

Primeiro reator brasileiro

Em 1971, o Brasil comprou um reator de água pressurizada (PWR) da empresa norte-americana Westinghouse, iniciando a construção de Angra 1, a primeira usina nuclear do país.

Localizada próxima à cidade de Angra dos Reis, a escolha do local foi questionada por alguns pesquisadores, que apontaram a região como inadequada.

A usina entrou em operação comercial em 1985, com capacidade de 640 megawatts (MW), suficiente para abastecer uma cidade de cerca de 2 milhões de habitantes.

Nos primeiros anos, enfrentou problemas de equipamentos, superados ao longo da década de 1990, quando passou a operar segundo padrões internacionais de desempenho.

Em 2023, Angra 1 registrou o maior índice de geração de energia em um único mês de sua história.

Angra 2

A segunda usina nuclear brasileira, Angra 2, começou a operar em 2001, com capacidade de 1.350 MW, atendendo a uma cidade de aproximadamente 2 milhões de habitantes.

O reator de tecnologia alemã começou a ser construído em 1981, sofreu interrupções por crises econômicas e foi concluído em 2000.

O Brasil conta hoje com apenas duas usinas nucleares, Angra 1 e Angra 2, responsáveis por cerca de 3% da energia consumida no país, enquanto a hidrelétrica de Itaipu sozinha fornece 15%.

Sabotagem norte-americana

Informações divulgadas pelo Wikileaks indicam que, em fevereiro de 2009, o então diretor-presidente da Eletrobras Termonuclear SA, almirante Othon Luiz Pinheiro da Silva, discutiu com o embaixador dos EUA no Brasil, Clifford M. Sobel, alternativas para o monitoramento das atividades nucleares brasileiras.

A pressão internacional se dava pelo Protocolo Adicional da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), que prevê inspeções muito mais intrusivas, permitindo acesso irrestrito às instalações nucleares.

Autoridades brasileiras consideravam esse modelo uma ameaça à soberania, por expor tecnologias estratégicas e sigilosas.

"Pinheiro vinha pensando na questão de fornecer garantias à comunidade internacional sem realizar inspeções intrusivas. Além de violar a Constituição brasileira, as inspeções intrusivas previstas em um Protocolo Adicional poderiam, na verdade, levar à proliferação nuclear, já que os muitos inspetores envolvidos, de diferentes países, poderiam ver e aprender sobre tecnologias altamente sensíveis e perigosas", cita o documento.

"Czar da energia nuclear"

Classificado como "czar da energia nuclear" no Brasil, Othon Pinheiro defendia que o monitoramento fosse feito por sensores, sem que inspetores precisassem entrar fisicamente nas instalações.

Isso garantiria transparência internacional sem expor tecnologias estratégicas.

Othon destacou: "Nós podemos fazer as coisas de forma transparente e também manter confidenciais nossos segredos [de Estado]".

Ele também afirmou que o Brasil deveria ser tratado como Japão, Alemanha e demais países desenvolvidos, e não como Irã e Iraque pela AIEA.

O documento do Wikileaks evidencia a pressão exercida pelos EUA e pela AIEA sobre o programa nuclear brasileiro, buscando ampliar o acesso a instalações estratégicas, como usinas, centros de pesquisa e locais militares, levantando preocupações sobre a exposição de informações sensíveis e segredos de Estado.