Arsenal dos houthis surpreende Estados Unidos e aliados

Após ameaças de se envolver no conflito no Oriente Médio ao lado do Irã, rebeldes houthis do Iêmen anunciam primeiro lançamento de mísseis balísticos contra Israel em retaliação a “ataques e massacres” contra seus “irmãos”.

O movimento rebelde dos Houthis, do Iêmen, mostrou na última década sua capacidade de conquistar Saná e outras cidades importantes, além de resistir a uma coalizão árabe liderada por Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos. Durante a guerra na Faixa de Gaza, os houthis lançaram mais de cem ataques contra navios, incluindo petroleiros, no Mar Vermelho e dispararam mísseis e drones contra Israel.

Apesar do cessar-fogo direto com os EUA, o grupo continuou atacando Israel e a navegação até a trégua de Gaza, no outono de 2025, quando suspenderam suas ações. O tráfego no Mar Vermelho voltou, mas ainda não atingiu os níveis anteriores a 7 de outubro de 2023.

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No contexto da guerra no Oriente Médio, desencadeada pela agressão não provocada de Israel e EUA contra o Irã, os houthis anunciaram no sábado (29) seu primeiro ataque com mísseis balísticos contra Israel. Dois dias antes, já haviam declarado estar "plenamente preparados militarmente" para entrar no conflito, caso necessário. Segundo comunicado do grupo, a decisão de apoiar o Irã e outros grupos armados no Líbano, Iraque e Palestina é uma resposta a "ataques a infraestruturas e crimes contra nossos irmãos".

O movimento prometeu continuar a ofensiva até que "a agressão cesse". Mas suas capacidades militares ainda são incertas, assim como a duração que poderão manter suas campanhas. Segundo o próprio Pentágono, a habilidade do grupo de produzir os armamentos usados, mísseis, drones e outros sistemas, é "em grande parte desconhecida".

Possível arsenal militar

Dados do Instituto Internacional de Estudos Estratégicos (IISS), coletados em 2023, mostram que o componente mais visível do arsenal dos houthis são os mísseis antinavio balísticos e de cruzeiro. Muitos deles têm origem iraniana ou soviética/chinesa adaptada, enquanto outros são produzidos ou montados localmente no Iêmen, com kits de guiamento fornecidos pelo Irã.

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Entre os mísseis balísticos antinavio identificados, destacam-se:

No segmento de mísseis de cruzeiro antinavio, o IISS registra uma mistura de material herdado e vetores de design iraniano:

Segundo dados coletados pelo portal Army Recognition no ano passado, entre os mais utilizados estão o míssil balístico Burkan-2H, com alcance estimado entre 800 e 1.000 km, e o míssil balístico Zulfiqar, considerado uma variante dos Fateh-110 ou Rezvan iranianos, com alcance de até 1.400 km.

Uma adição recente ao arsenal dos houthis são os sistemas de mísseis Palestina-1 e Palestina-2. Acredita-se que o Palestina-2 seja um míssil balístico de longo alcance derivado de tecnologias do Irã (Kheibar Shekan ou Fattah) ou da Coreia do Norte, com alcance estimado de até 1.500 km.

Além disso, destacou-se que os houthis utilizam lançadores móveis de mísseis e plataformas de lançamento fortificadas nas regiões montanhosas de Saada, Hajjah e Al Jawf, o que dificulta sua detecção e interceptação precoces. Da mesma forma, a topografia robusta do Iêmen oferece um camuflagem natural.

Em 2025, o IISS apontou que as capacidades de produção local independente parecem estar mais avançadas no campo de veículos aéreos não tripulados mais simples, como o drone de ataque unidirecional Sammad 3 (KAS-04). Segundo autoridades ocidentais, esses drones são fabricados dentro do próprio Iêmen. No entanto, os drones de ataque unidirecional mais avançados, como o Shahed-131, Shahed-136 e o Yaffa de longo alcance, incorporam uma proporção maior de sistemas fornecidos pelo Irã: motores mais potentes, menos disponíveis no mercado aberto, e, no caso da série Shahed, componentes de fuselagem de materiais compostos mais complexos.

"Eles nos surpreenderam"

No ano passado, um alto funcionário de defesa dos Estados Unidos admitiu, em conversa com The War Zone, que Washington ainda não sabe quantas armas os houthis possuem nem de onde vêm todos os seus sistemas, descrevendo o arsenal do grupo iemenita como "em grande parte, um mistério". Segundo o responsável, há "um certo debate sobre o que há no arsenal" dos houthis. "Há muita coisa que ainda não sabemos sobre eles", afirmou.

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Embora, em resposta aos ataques dos houthis, os Estados Unidos e seus aliados tenham realizado diversos bombardeios a alvos no Iêmen, o funcionário americano reconheceu que o efeito dessas ações sobre a capacidade de produção de armas do grupo é incerto. "Não diria que alteramos suas capacidades de fabricação de armamento, porque, insisto, ainda existem muitas incógnitas", explicou. "Conhecíamos algumas das ameaças, sabemos alguns dos efeitos que eles tentam alcançar. Mas há coisas sobre as quais ainda estamos trabalhando", acrescentou.

O funcionário demonstrou, "a contragosto", certo respeito pela capacidade do grupo iemenita de desenvolver e adaptar seu armamento. "O que posso dizer sobre os houthis é que eles são bastante inovadores. Vemos eles montando sistemas de armas, combinando-os de diferentes maneiras, testando-os e, muitas vezes, falhando. Mas os militares falam em 'falhar avançando' e em ser inovador, e, eles estão fazendo exatamente isso”, admitiu.

Ele também reconheceu que, às vezes, algumas das configurações do grupo os surpreenderam: "Às vezes nos surpreendem com coisas que vimos eles fazerem, e isso nos faz coçar a cabeça. Eles não são tecnologicamente muito avançados, mas acreditamos que são bastante inovadores".

Sobre a origem do arsenal, o responsável afirmou que "grande parte da produção" ocorre dentro do Iêmen: "Nossa avaliação atual é que, provavelmente, alguns componentes-chave e outras partes vêm do Irã ou de outros lugares, mas boa parte da produção real está no Iêmen". No entanto, ele se recusou a comentar quais peças acredita que o grupo adquira no exterior.