'Czar da energia nuclear' debateu sobre os interesses dos EUA no programa nuclear do Brasil

Ex-presidente da Eletronuclear detalha método para proteger tecnologia das centrífugas de inspeções e afirma que sua prisão em 2015 visou interromper o desenvolvimento tecnológico nacional.

O almirante Othon Luiz Pinheiro da Silva, à época diretor-presidente da Eletronuclear, teria debatido em fevereiro de 2009 com o então embaixador dos EUA no Brasil, Clifford M. Sobel, os interesses norte-americanos no programa nuclear do Brasil. A informação consta em documentos revelados pelo Wikileaks.

"Pinheiro é por vezes chamado de novo 'czar da energia nuclear' no Brasil, embora tenha minimizado seu papel, descrevendo-se como apenas um dos vários atores no círculo de tomadores de decisão", diz o documento.

Como engenheiro, Pinheiro focou em soluções práticas para impasses técnicos. Os arquivos relatam o desenvolvimento de um método que permitiu a inspeção de instalações brasileiras pela Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), garantindo simultaneamente a proteção de informações confidenciais do país, como a tecnologia das centrífugas criada no Brasil.

A técnica envolvia a cobertura de partes sensíveis dos equipamentos, permitindo que os inspetores vissem apenas o necessário para cumprir sua tarefa. Segundo Pinheiro, a iniciativa foi bem recebida pelo então diretor-geral da agência, Hans Blix.

O engenheiro defendeu a coexistência entre a fiscalização externa e o sigilo tecnológico nacional. "Podemos tornar as coisas transparentes e ainda manter segredos", teria afirmado, segundo o documento.

Para Pinheiro, o "Brasil precisava ser tratado como o Japão ou Alemanha", e não como países que supostamente "tentam desenvolver armas nucleares". E que qualquer "acordo com a AIEA para supervisão/monitoramento/inspeção adicionais teria que implicar uma forma diferente de inspeção".

Prisão na Operação Lava Jato

Em julho de 2015, Othon Pinheiro foi preso pela Polícia Federal durante a 16ª fase da Operação Lava Jato, denominada "Radioatividade". Segundo o G1, a prisão preventiva foi determinada pelo juiz Sergio Moro em investigação sobre crimes de corrupção.

O foco das apurações foram contratos relacionados às obras da usina nuclear de Angra 3. Na época, Pinheiro ainda era presidente da Eletronuclear e foi alvo de buscas em sua residência e em empresas vinculadas a seus familiares.

Em março de 2022, o Tribunal Regional Federal da 2ª Região (TRF2) reduziu a condenação de Pinheiro, de 43 anos para 4 anos e 10 meses de reclusão. A decisão da Primeira Turma Especializada manteve as acusações de corrupção passiva e lavagem de dinheiro relacionadas às obras da usina de Angra 3, mas absolveu o militar de crimes como obstrução de justiça, organização criminosa e evasão de divisas.

Em entrevista à Folha de S.Paulo após cumprir sua pena, o almirante Othon Luiz Pinheiro da Silva afirmou que sua prisão no âmbito da Operação Lava Jato foi motivada por interesses internacionais querendo paralisar o programa nuclear brasileiro e o projeto do submarino atômico.

O ex-presidente da Eletronuclear nega o recebimento de propinas para benefício pessoal, alegando que os recursos recebidos por sua empresa, a Aratec, eram remunerações por consultorias técnicas legítimas, e não tinham relação com favorecimentos em Angra 3.