Não é só Ormuz: Irã tem outra carta na manga que pode paralisar mercados de energia

Diante da escalada, os países do Golfo Pérsico estão ativando rotas alternativas para exportar seu petróleo. No entanto, essas rotas não estão fora do alcance de Teerã e de seus aliados.

O bloqueio parcial do Estreito de Ormuz e a guerra em curso são um golpe devastador para os países do Golfo Pérsico, que antes do conflito forneciam quase um quinto do petróleo mundial.

A crise expôs a fragilidade de suas rotas de exportação, com países como Kuwait, Catar e Bahrein ficando praticamente sem alternativas e até a Arábia Saudita dependendo de um oleoduto construído nos anos 1980 e de um porto sob constante ameaça.

A solução temporária de Riad é o oleoduto Leste-Oeste, uma infraestrutura de 1.200 km construída durante a guerra entre Irã e Iraque como plano de contingência. 

O oleoduto compensa parte das exportações de petróleo do reino; no entanto, especialistas questionam sua confiabilidade e apontam para sua vulnerabilidade.

A estrutura liga os campos petrolíferos do leste ao porto de Yanbu, no Mar Vermelho, contornando o Estreito de Ormuz. Sua capacidade nominal é de 7 milhões de barris por dia (bpd), mas o ponto de origem está no porto de Yanbu, que só consegue carregar até 4,5 milhões bpd, o que é longe dos cerca de 20 milhões bpd que o Golfo exportava antes da guerra, destacou o o analista do mercado de energia Artem Yarin em conversa com a RT

Dados da empresa de rastreamento de navios-tanque Kpler mostram que Yanbu já registrou o fluxo de 2,2 milhões bpd nos primeiros dias de março, mais que o dobro da sua taxa pré-guerra.

"Rota muito vulnerável"

No entanto, a rota é "muito vulnerável", alerta o especialista. Em 19 de março, uma refinaria em Yanbu já foi atacada por drones iranianos.

O oleoduto também é um alvo extenso e difícil de proteger, e o porto está perigosamente próximo do Estreito de Bab el-Mandeb, que os rebeldes Houthis do Iêmen, aliados do Irã, já ameaçam fechar.

Devido à sua localização, o estreito está entre os corredores marítimos mais importantes da logística global.

Aproximadamente 20 mil navios atravessam a via transportando 8,8 milhões de barris de petróleo por dia. Além disso, cerca de 10 a 12% do comércio marítimo global depende desta rota.

O Irã tem as cartas 

Especialistas haviam alertado que o fechamento deste corredor neste momento, juntamente com o bloqueio do Estreito de Ormuz, poderia levar a um bloqueio efetivo dos países do Golfo Pérsico. 

"Se o Estreito de Ormuz e o Mar Vermelho forem completamente fechados, os países do Golfo que exportam ficarão basicamente sem acesso ao Oceano Índico", afirmou Luca Nevola, especialista em segurança marítima na região.

Ao mesmo tempo, os países do Golfo praticamente não têm alternativas. "As possibilidades de redirecionar as exportações para o norte, através do Canal de Suez, também são limitadas, uma vez que os superpetroleiros, utilizados principalmente para transportar petróleo de Yanbu, não podem passar por Suez", observou Yarin.

Para os Emirados Árabes, a alternativa é o porto de Fujairah, no Golfo de Omã, mas sua capacidade é limitada a 1,7 milhão bpd. 

"Se a guerra entrar em uma nova fase de escalada, Teerã é perfeitamente capaz de cortar as rotas de exportação de petróleo de reserva do Oriente Médio e atingir seu objetivo de US$ 200 por barril", concluiu Yarin.