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'Não quero morrer por Israel': relatos expõem desgaste de militares sob Trump no Oriente Médio

Tropas relatam estresse, vulnerabilidade e falta de clareza sobre objetivos da guerra; alguns consideram deixar as Forças Armadas.
'Não quero morrer por Israel': relatos expõem desgaste de militares sob Trump no Oriente MédioStaff Sgt. Eric Kestner

Dúvidas sobre a estratégia do presidente americano Donald Trump para o Oriente Médio se espalham entre as tropas na quarta semana do conflito entre os EUA e Israel contra o Irã, relatou o Huffington Post no domingo (22), com base em informações de fontes militares.

Relatos de soldados da ativa, reservistas e grupos de defesa dos direitos militares indicam que militares envolvidos no conflito se sentem "vulneráveis", enfrentando estresse intenso, frustração e desilusão. Muitos avaliam deixar as Forças Armadas.

"Ouço militares dizendo: 'Não queremos morrer por Israel; não queremos ser peões políticos'", disse uma reservista. "Compartilhei informações sobre objetores de consciência seis vezes nas últimas duas semanas, e estou nas Forças Armadas há quase 20 anos. Nunca encontrei ninguém assim antes", acrescentou.

Segundo os reservistas, a ausência de uma justificativa clara e coerente para a guerra contra o Irã é uma das principais fontes de descontentamento, desmoralizando militares que veem o conflito como mal planejado e sem benefício estratégico identificável.

"Não conseguimos nem defender completamente uma única base terrestre"

Um oficial que atende militares evacuados do Oriente Médio no Centro Médico Regional de Landstuhl, na Alemanha, afirmou que as tropas enfrentam "proteção e planejamento inadequados" e já lidam com consequências graves após ataques com mísseis balísticos e drones iranianos contra instalações americanas na região. Até o momento, autoridades confirmaram a morte de 13 soldados e ao menos 232 feridos.

O oficial observou que uma operação terrestre seria "um desastre absoluto", já que Washington não tem um plano para esse cenário. "Não conseguimos nem defender completamente uma única base terrestre na área", acrescentou.

A retaliação iraniana atingiu bases militares dos EUA no Kuwait, Emirados Árabes Unidos, Catar, Bahrein e Arábia Saudita, entre outros países.

Desde o início dos ataques, comandantes têm enfrentado dificuldades para conter a crescente sensação de vulnerabilidade entre as tropas, segundo um ex-oficial. Ele apontou comportamentos preocupantes, como a recusa de alguns militares em atender chamados para se abrigar em bunkers durante bombardeios.

"Ser atingido por fogo indireto aleatório não é a mesma coisa que ver toda a sua academia, refeitório e alguns dormitórios explodirem a menos de 50 metros de distância", explicou.

Mudança de atitude em relação ao papel dos EUA no Oriente Médio

As preocupações com o serviço militar e a campanha contra o Irã indicam uma mudança na percepção sobre o papel dos Estados Unidos no Oriente Médio, especialmente em relação a Israel.

Soldados demonstram resistência em participar de uma operação conjunta entre EUA e Israel após presenciarem a devastação causada pela ofensiva israelense em Gaza desde 2023, com apoio americano.

Uma pesquisa da NBC News, realizada em março, revelou que 63% dos eleitores com menos de 34 anos têm atualmente uma visão negativa do país, ante os 37% de 2023.

Veteranos alertam que Washington pode estar se aproximando de um novo conflito prolongado e custoso, semelhante às guerras no Iraque e no Afeganistão.