Fala de Trump sobre Pearl Harbor provoca críticas e debate no Japão — NYT

Repercussão da fala durante encontro na Casa Branca mobiliza autoridades e analistas e levanta questionamentos sobre memória histórica e diplomacia entre os países.

A visita da primeira-ministra do Japão, Sanae Takaichi, à Casa Branca, marcada por agendas diplomáticas, acabou ofuscada por uma declaração do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, sobre o ataque a Pearl Harbor. O comentário foi feito durante o encontro na quinta-feira (19) e, segundo apuração do The New York Times, dominou o debate público no Japão já na sexta-feira (20).

Durante a reunião no Salão Oval, Trump mencionou a ausência de aviso prévio ao Japão sobre uma ação contra o Irã e afirmou: "Queríamos surpresa. Quem entende melhor de surpresa do que o Japão, ok? Por que vocês não me avisaram sobre Pearl Harbor, ok? Certo?". A fala ocorreu ao lado de Takaichi, que não respondeu no momento.

A declaração gerou reações entre acadêmicos, comentaristas e figuras públicas no Japão. Parte das críticas apontou o uso de um episódio histórico sensível, enquanto outros questionaram a postura da premiê diante da fala. Também houve manifestações sobre possíveis impactos nas relações entre os dois países.

O comentarista Toru Tamagawa, emissora TV Asahi, afirmou em um programa de televisão que o episódio revelou "um lado desagradável do presidente Trump". Segundo ele, "ele não se importa nem um pouco que a primeira-ministra japonesa esteja sentada ao lado dele".

Já o professor Izuru Makihara, da Universidade de Tóquio, avaliou que parte da população pode interpretar a fala como mais uma declaração fora do padrão. Ainda assim, disse: "isso é algo que absolutamente não deveria ser dito. Ele pode começar a dizer coisas como 'Hiroshima e Nagasaki estavam bem, não estavam?' Para os japoneses, não podemos aceitar isso".

A postura de Takaichi também foi alvo de comentários. Durante a visita, ela elogiou Trump e afirmou: "acredito firmemente que apenas você, Donald, pode alcançar a paz em todo o mundo". Para o ex-diplomata Hitoshi Tanaka, a abordagem foi "bizarra e constrangedora".

Até o momento, a premiê japonesa e seu gabinete não se pronunciaram oficialmente sobre o episódio. Em publicação nas redes sociais após o encontro, Takaichi agradeceu a recepção e destacou o conteúdo das conversas com o presidente dos Estados Unidos.

"Obrigada, presidente Donald Trump, pela calorosa hospitalidade hoje na Casa Branca e no jantar desta noite. Tivemos discussões substanciais e voltadas para o futuro sobre uma ampla gama de temas, reafirmando a força da aliança Japão-Estados Unidos. Foi um dia verdadeiramente significativo e produtivo. Espero continuar a cooperação estreita entre o Japão e os Estados Unidos para tornar nossas duas nações mais fortes e prósperas".

A ex-parlamentar Shiori Yamao afirmou que "o incidente de Pearl Harbor não era algo que pudesse ser respondido na hora. A atitude calma de deixar que fosse dito também foi correta".

Fato histórico

O ataque a Pearl Harbor foi uma ofensiva militar conduzida pelo Japão em 7 de dezembro de 1941 contra a base naval dos Estados Unidos no Havaí. A ação levou à entrada formal de Washington na Segunda Guerra Mundial e marcou um ponto de inflexão no conflito

O episódio é tratado de forma distinta dentro do Japão. Enquanto setores nacionalistas ainda defendem a ação como resposta a pressões externas, a fase pós-guerra trouxe avaliações mais críticas. Entre gerações mais jovens, o episódio tem menor presença no debate público.

Historicamente, presidentes dos Estados Unidos evitaram abordar o tema de forma direta em encontros oficiais, priorizando a cooperação entre os países. O Japão é aliado de Washington desde o fim da Segunda Guerra Mundial.