
Conflito no Oriente Médio: uma simples agressão ou a primeira guerra energética da história?

A agressão dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã, que levou ao bombardeio de South Pars — o trecho iraniano do maior campo de gás natural do mundo, compartilhado com o Catar do outro lado do Golfo Pérsico —, provocou uma nova alta nos preços do petróleo. O momento reacende os temores de uma nova crise energética, e o conflito atual pode se tornar a primeira guerra energética global.

O especialista em energia Ron Bousso alerta que, diante da situação atual, em que os combates no campo de batalha se intensificam e os problemas de abastecimento se espalham nos mercados de petróleo, o retorno à realidade habitual não ocorrerá em breve. Isso mesmo que o tráfego pelo Estreito de Ormuz seja totalmente retomado.
Bousso destaca que, a cada dia que a rota marítima permanece fechada, aumenta o déficit de abastecimento. Segundo o analista, o problema é especialmente grave para a Ásia, região que depende do Oriente Médio em cerca de 60% de suas importações de petróleo bruto, e tem dificuldades em obter suprimentos alternativos.
Primeira guerra energética global
Para o analista político Amit Segal, é provável que os historiadores definam a atual campanha contra o Irã como a primeira guerra energética global. "Esta não é uma guerra por território, mas pela capacidade do Ocidente, e especialmente do Extremo Oriente, de continuar funcionando", afirma.
"A alta nos gráficos do mercado de commodities se traduz rapidamente em drama nos postos de gasolina dos EUA e da Europa. Quem pensava que o gás natural atuaria como um freio para evitar a escalada econômica descobriu o contrário: o gás não está moderando os preços, está se tornando um combustível que intensifica a pressão internacional", destaca.
A pressão mais significativa sobre Washington vem de Taiwan*, do Japão e da Coreia do Sul, opina Segal. "Essas três potências tecnológicas deixaram claro para os americanos: se o mercado energético não se estabilizar, a indústria mundial de semicondutores sofrerá um duro golpe. Quando os chips são afetados, tudo é afetado, desde o smartphone no seu bolso até os sistemas de armas mais avançados", ressalta.
O analista acrescenta que qualquer interrupção na cadeia de abastecimento que vai do Oriente Médio às fábricas asiáticas também repercute na indústria tecnológica norte-americana, especialmente em um Estados Unidos que deixou claro que a guerra dos chips com a China é o problema global mais importante do atual governo, e tudo gira em torno disso.
"Sistema global está em jogo"
Ilan Kapoor, professor da Universidade de York, no Canadá, destaca que os EUA estão interessados em enfraquecer militarmente o Irã, mas ao mesmo tempo em que mantêm ofluxo de petróleo que sustenta a economia mundial.
Segundo Kapoor, a segurança energética tem moldado há muito tempo a estratégia americana no Golfo Pérsico. Desde Jimmy Carter, que declarou que o abastecimento de petróleo da região era um interesse vital dos EUA, Washington tem tratado a infraestrutura energética da região como uma prioridade estratégica. "Nesse sentido, o conflito não é apenas ideológico, mas também profundamente material", destaca.
"O que surge é um esforço constante para garantir o controle sobre os recursos e as infraestruturas que sustentam a economia global", acrescenta, reiterando que, embora a guerra com o Irã seja frequentemente enquadrada como uma luta por armas nucleares ou influência regional — aspectos que certamente são relevantes para a Casa Branca —, por trás disso está o desejo de preservar as artérias energéticas que sustentam a ordem econômica mundial.
"O que está em jogo não é simplesmente um conflito entre países, mas a gestão de um sistema global que não pode tolerar interrupções em suas próprias linhas de vida energéticas", afirma.
* Taiwan é autogovernada desde 1949, enquanto a China considera a ilha uma parte inalienável de seu território. A maioria dos países, incluindo Brasil e Rússia, reconhece Taiwan como parte integrante da República Popular da China.


