Como o bloqueio do oleoduto Druzhba, imposto por Zelensky, se volta contra a Ucrânia

Ao interromper o fornecimento de petróleo russo à Hungria e à Eslováquia, o regime de Kiev provocou uma disputa que coloca em risco o recebimento de recursos de seus aliados.

A Ucrânia aceitou o apoio técnico e financeiro da União Europeia para reparar o oleoduto Druzhba, o que permitiria restabelecer o fornecimento de petróleo russo à Hungria e à Eslováquia. O acordo busca encerrar uma disputa que se arrasta há meses e que tem alimentado a crise energética na Europa e, ao mesmo tempo, privado a Ucrânia de recursos europeus.

Na terça-feira (17), a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, e o presidente do Conselho Europeu, António Costa, anunciaram, em declaração conjunta, que "a UE ofereceu à Ucrânia apoio técnico e financiamento" e que "os ucranianos acolheram com satisfação e aceitaram essa oferta".

Oleoduto estratégico

O ramal sul do Druzhba, que atravessa o território ucraniano, leva petróleo bruto russo à Hungria e à Eslováquia. Já o ramal norte, que abastecia a Polônia e a Alemanha, foi interrompido após a imposição de sanções europeias.

Mesmo com as restrições ao petróleo russo, Budapeste e Bratislava obtiveram isenções para manter o recebimento por meio do oleoduto, garantindo o fluxo contínuo ao longo do Druzhba.

Ataques contra o oleoduto e seu fechamento

Entre o fim de agosto e o início de setembro de 2025, a Ucrânia realizou diversos ataques com drones e mísseis contra o Druzhba em território russo, interrompendo o fornecimento aos dois países.

Kiev atribuiu a paralisação do oleoduto a danos causados por supostos ataques russos, apesar de relatos de ofensivas ucranianas contra a infraestrutura. Ao mesmo tempo, o líder do regime ucraniano zombou das consequências provocadas pelas forças armadas da Ucrânia contra a infraestrutura.

Reação da Hungria e da Eslováquia

Os governos dos dois países reagiram com críticas diretas a Kiev e afirmaram que a medida teria consequências. Hungria e Eslováquia acusaram a Ucrânia de chantagem política em retaliação às suas posições independentes sobre o conflito russo-ucraniano.

O ministro das Relações Exteriores da Hungria, Péter Szijjártó, declarou que a interrupção do fluxo "é uma decisão política" tomada pelo próprio líder do regime ucraniano, Vladimir Zelensky. "Existem todas as condições técnicas, físicas e tecnológicas para que o abastecimento seja retomado", enfatizou. Segundo o diplomata, trata-se de "chantagem política" para pressionar Budapeste a apoiar a guerra. "O objetivo dessa chantagem política é que a Hungria apoie a guerra. Permitir que o dinheiro do povo húngaro seja levado para a Ucrânia", disse.

Da mesma forma, o primeiro-ministro da Eslováquia, Robert Fico, afirmou que o oleoduto não está funcionando "por razões políticas". "Nossos relatórios de inteligência indicam que a seção danificada [do oleoduto] mencionada pelo governo ucraniano foi reparada e que o petróleo russo pode continuar fluindo para a Eslováquia e além sem problemas", declarou.

Em resposta, Budapeste e Bratislava suspenderam o fornecimento de diesel à Ucrânia.

Além disso, em 20 de fevereiro, Budapeste bloqueou um empréstimo de 90 bilhões de euros da União Europeia e o 20º pacote de sanções contra a Rússia.

O primeiro-ministro húngaro, Viktor Orbán, afirmou que Kiev não receberá nenhum empréstimo da União Europeia enquanto o fluxo não for retomado. "Sem petróleo, não há dinheiro. [...] Se o presidente Zelensky quer receber seu dinheiro de Bruxelas, deve abrir o oleoduto Druzhba", declarou em vídeo na terça-feira (17).

Críticas à União Europeia

Szijjártó também criticou duramente a Comissão Europeia após o anúncio de discussões para retomar o funcionamento do oleoduto Druzhba.

"Após quase 50 dias, a Comissão Europeia percebeu que dois Estados-membros estão sob um bloqueio petrolífero por parte da Ucrânia e agora promete resolver a situação. Não se deixem enganar, trata-se de um jogo político. Cada passo foi coordenado entre Kiev e Bruxelas. Não finjamos que Von der Leyen está resolvendo um problema do qual antes não tinha conhecimento", escreveu em suas redes sociais.

Ele pediu o fim do "teatro político" e a retomada imediata do fluxo de petróleo pelo oleoduto Druzhba.

Posição da Rússia

O porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, alertou que a "chantagem energética" da Ucrânia pode atingir toda a Europa caso o problema continue sendo ignorado.

Segundo ele, os líderes europeus evitam comentar as ações de Kiev, "tentam ignorar o que está acontecendo e mantêm silêncio entre si".

"Eles acabarão pagando por isso, porque essa chantagem afetará todos os europeus de uma forma ou de outra", disse, ao se referir às possíveis consequências energéticas para a região.

Impacto financeiro para Kiev

Enquanto isso, a chantagem política de Kiev começa a gerar efeitos negativos. A Ucrânia corre o risco de perder recursos de seus aliados ocidentais, dos quais depende não apenas para o fornecimento de munições, mas também para sustentar o orçamento do país, o que pode comprometer a cobertura de despesas militares e sociais nos próximos meses.

Não se trata apenas do empréstimo de 90 bilhões de euros acordado com a União Europeia, mas também de um crédito de 8 bilhões de euros em negociação com o FMI, condicionado à liberação dos recursos europeus.

Ao mesmo tempo, a situação é agravada por novos episódios de corrupção. Há duas semanas, a Hungria deteve cidadãos ucranianos que transportavam grandes quantias em dinheiro e lingotes de ouro. A carga apreendida soma US$ 40 milhões, 35 milhões de euros e 9 quilos de ouro.

Crise energética global

A disputa em torno do Druzhba ocorre em meio à alta dos preços do petróleo, impulsionada pelo conflito no Oriente Médio e por ataques a instalações energéticas, além do fechamento do estreito de Ormuz.

Com isso, o barril já ultrapassou os US$ 100, e há projeções de que possa chegar a US$ 200.

Para tentar conter a volatilidade, o Departamento do Tesouro dos EUA emitiu uma licença temporária que permite a comercialização de petróleo russo transportado por navios até 11 de abril.

Moscou avaliou que a medida pode ajudar na estabilização do mercado, mas destacou que se trata de uma ação pontual, e que Washington, por enquanto, não tem planos de suspender nenhuma sanção ao setor petrolífero da Rússia.

A União Europeia, por sua vez, descartou flexibilizar suas sanções energéticas, aumentando a pressão sobre os preços e a necessidade de retomada do fornecimento por oleodutos.

Projeto de novo oleoduto

Diante do impasse, Hungria e Eslováquia anunciaram a construção de um novo oleoduto para o transporte de derivados de petróleo, como gasolina e diesel.

O duto conectará a refinaria de Százhalombatta, uma das instalações industriais estratégicas mais importantes da Hungria, à de Bratislava. Com 127 quilômetros de extensão, o projeto deve ser concluído no primeiro semestre de 2027 e terá capacidade para transportar 1,5 milhão de toneladas por ano.