Lula revela pressão de Obama e UE contra acordo com Irã

Durante discurso em São Paulo, o presidente relembrou a mediação diplomática de 2010 e criticou a postura de Donald Trump frente aos conflitos globais atuais.

O presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, revelou nesta quinta-feira (19) que o então presidente dos EUA, Barack Obama, e a União Europeia (UE) tentaram convencê-lo a não buscar, em parceria com o governo turco, um acordo nuclear pacífico com o Irã.

Em fala durante a 17ª Caravana Federativa em São Paulo, Lula relembrou quando Brasília e Istambul costuraram um acordo com Teerã para o enriquecimento de urânio com fins científicos e pacíficos. O presidente contou que estava em Nova York. "Procurei o [então presidente iraniano Mahmoud] Ahmadinejad. Disse para ele que o Brasil estava disposto a defender que o Irã tivesse direito de enriquecer o urânio para fim científico, e não para fim de armas nucleares", detalhou.

Lula se dispôs a convencer Obama e a União Europeia a derrubarem o bloqueio praticado contra o Irã se Teerã aceitasse os termos de Brasília. "Obama dizia para mim: 'Lula, você não vai lá no Irã porque eles não vão fazer, eles são mentirosos'", contou. "Sabe, todos os países da União Europeia (diziam): 'Não vá, não vá'. Eu fui. Fiquei dois dias inteiros. Em dois dias nós conseguimos fazer um acordo com o Ahmadinejad, assinado publicamente, divulgado fartamente", continuou.

O presidente brasileiro também revelou surpresa com o desfecho da situação. "E quando eu pensei que o Brasil e a Turquia, que fizeram esse acordo junto com o Irã, iam ganhar o prêmio Nobel da Paz, o que aconteceu? Os Estados Unidos e a União Europeia, ao invés de aceitar o nosso acordo, aumentaram o bloqueio ao Irã", lembrou.

Para ele, há uma razão para que acordos elaborados por países como Brasil e Turquia com o Irã não sejam aceitos pela comunidade internacional. Lula diz que "aconteceu porque o Brasil não faz parte da elite dos países do Conselho de Segurança da ONU".

O mandatário ainda disse que "Obama mandou uma carta para mim, dizendo que se o senhor Ahmadinejad fizesse aquilo que estava na carta, os Estados Unidos concordariam. E o Ahmadinejad assinou exatamente aquilo que nós pedimos para ele assinar".

"Os americanos e os europeus fizeram, há três ou quatro anos, um acordo pior do que aquele que nós fizemos", afirmou. "E agora nós fomos pegos de surpresa com os Estados Unidos bombardeando o Irã. Eu nunca pedi para ninguém concordar com o regime do Irã. Eu mesmo não concordo. Mas a gente precisa aprender a respeitar a autodeterminação dos povos", declarou o presidente.

Em um discurso feito em outro evento na quarta-feira (18), Lula também criticou a forma como os membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU atuam como se tivessem controle das decisões globais e fez duras críticas à forma como o presidente dos EUA, Donald Trump, tem se posicionado, falando em anexar outros países e buscando guerras "que ninguém pediu".