Como a crise dos combustíveis fósseis redesenha a segurança energética mundial

Três quartos da população mundial vivem em países que importam mais combustíveis fósseis do que exportam, e que gastaram US$ 1,7 trilhão em 2024 para garantir o fornecimento — valor que sobe a cada nova alta do barril.

A fragilidade atual do abastecimento global de combustíveis fósseis mostra por que escalar renováveis e eletrificação deixou de ser apenas uma agenda climática e passou a ser condição básica de segurança energética. É o que aponta o relatório da companhia Ember divulgado na quarta-feira (18).

Três quartos da população mundial vivem em países que importam mais combustíveis fósseis do que exportam, e que gastaram US$ 1,7 trilhão em 2024 para garantir o fornecimento — valor que sobe a cada nova alta do barril. Para cada aumento de US$ 10 no preço do petróleo, a conta anual dos importadores cresce em cerca de US$ 160 bilhões, expondo orçamentos nacionais a choques que fogem completamente ao seu controle.

Diante dessa vulnerabilidade estrutural, a chamada "electrotech" se apresenta como solução duradoura: ampliar o uso de veículos elétricos, energias renováveis e bombas de calor para substituir combustíveis importados permitiria aos países importadores cortar em até 70% suas compras externas de petróleo, gás e carvão. 

Essa mudança já começou a amortecer choques recentes. Em 2025, a frota global de veículos elétricos evitou um consumo de petróleo equivalente a 70% das exportações iranianas. No mesmo ano, o crescimento da energia solar foi suficiente para potencialmente substituir geração a gás em volume comparável a todas as exportações de gás natural liquefeito (GNL) que passaram pelo Estreito de Ormuz.

« ENTENDA POR QUE O ESTREITO DE ORMUZ É A VERDADEIRA ARMA DO IRÃ EM NOSSO ARTIGO »

As consequências de longo prazo dessa crise apontam para uma virada especialmente nítida na Ásia, que importa 40% do seu petróleo justamente via Estreito de Ormuz. O caso do GNL como combustível de transição para a região sai enfraquecido, enquanto o pico da demanda global de petróleo parece se aproximar mais rápido: a própria Agência Internacional de Energia já reduziu sua previsão de crescimento para 2026, e o pico antes projetado para 2029 pode, na prática, já ter chegado.