Vorcaro e ligações com autoridades: Como o escândalo do Banco Master pode virar um terremoto em Brasília?

Mensagens, contratos, reuniões e repasses citam integrantes dos Três Poderes e ampliam o alcance político de uma investigação que já atinge o Supremo, o Congresso e o Planalto.

A queda do Banco Master deixou de ser apenas um caso financeiro e passou a ocupar espaço no centro de uma crise política em Brasília.

As investigações sobre o banqueiro Daniel Vorcaro, dono da instituição liquidada pelo Banco Central, avançaram sobre uma rede de relações com ministros do Supremo Tribunal Federal, chefes do Congresso, integrantes do governo federal, ex-autoridades e operadores com trânsito em diferentes áreas do poder.

O que torna o caso sensível não é apenas a dimensão da fraude investigada, mas o alcance das conexões reveladas por mensagens, contratos, reuniões e relatos colhidos pela Polícia Federal.

O material já conhecido mostra que Vorcaro circulava com acesso a gabinetes, residências oficiais, escritórios de advocacia ligados a autoridades e eventos frequentados por integrantes da cúpula da República.

Em ano eleitoral, esse conjunto de informações cria em Brasília o temor de que o escândalo do Master deixe de atingir apenas um banqueiro e passe a comprometer figuras de vários polos políticos.

Rede de influência

A preocupação aumentou depois da nova prisão de Vorcaro, mantida por maioria em painel do Supremo em 13 de março. A decisão ocorreu após a acusação de que ele teria tentado subornar um ex-diretor do Banco Central com presentes em troca de tratamento favorecido.

Antes disso, ele já havia sido preso em novembro de 2025, quando o Banco Central liquidou o Master no dia seguinte. A avaliação, em setores de Brasília, é que a permanência do banqueiro na cadeia eleva a pressão em torno de uma eventual colaboração com a Justiça e mantém em aberto a possibilidade de novas revelações.

O caso ganhou outra dimensão quando arquivos do celular de Vorcaro, obtidos por parlamentares a partir da investigação federal, passaram a expor uma rede de influência que alcança os Três Poderes.

Até este momento, as apurações já produziram desgaste em diferentes frentes. Dois servidores do Banco Central deixaram seus cargos depois de reguladores identificarem que ambos prestavam consultoria a Vorcaro.

No Supremo, o ministro Dias Toffoli se afastou da supervisão de uma investigação da Polícia Federal sobre o caso após a revelação de que uma empresa de sua família mantinha vínculos financeiros com o grupo de Daniel Vorcaro. Na ocasião, Toffoli declarou que nunca recebeu pagamentos do Master nem de Vorcaro.

« QUEM É DANIEL VORCARO, BANQUEIRO NO CENTRO DO ESCÂNDALO DO BANCO MASTER? »

Outro ponto de pressão

Outro foco de pressão recaiu sobre o ministro Alexandre de Moraes. De um lado, surgiu o contrato do escritório de sua esposa, Viviane Barci de Moraes, com o Banco Master. Segundo o material reunido na apuração, o contrato previa pagamento de R$ 129 milhões em três anos.

Em nota, o escritório informou que prestou serviços ao banco, mas afirmou que não o representou no Supremo. De outro lado, reportagens indicaram a existência de mensagens enviadas por Vorcaro no dia de sua prisão em novembro.

Segundo informações divulgadas pelo jornal O Globo, o conteúdo teria sido endereçado a Moraes. O ministro negou ser o destinatário das mensagens.

As informações que vieram a público revelam que o banqueiro tentou construir proteção em várias frentes ao mesmo tempo.

Documentos analisados pela Reuters indicam que, mesmo quando o Master já enfrentava dificuldades para evitar a liquidação, Vorcaro bancou eventos voltados à aproximação com a elite política e institucional do país. Em abril de 2024, ele financiou em Londres um fórum que custou US$ 6 milhões (cerca de R$ 31,56 milhões) e reuniu nomes do Supremo e da Polícia Federal.

O encontro terminou com uma degustação de uísque Macallan estimada em US$ 640 mil (aproximadamente R$ 3,37 milhões). Entre 2024 e abril de 2025, segundo documentos vistos pela agência, ele também gastou ao menos US$ 120 milhões (cerca de R$ 631,2 milhões) em viagens e festas. A origem desses recursos ainda não foi esclarecida.

Ao mesmo tempo, Vorcaro buscava apoio político para enfrentar o isolamento do banco. Um dos principais articuladores citados nas reportagens é o ex-ministro da Fazenda Guido Mantega, apontado como consultor do Master e responsável por aproximar o banqueiro do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Segundo os relatos reunidos, Mantega ajudou a organizar uma reunião em dezembro de 2024 com Lula e o então futuro presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo.

Em entrevista ao UOL, Lula confirmou o encontro e disse que deixou claro a Vorcaro que não haveria interferência política no caso do banco, apenas "uma investigação técnica conduzida pelo Banco Central".

O Planalto aparece no caso não apenas por essa reunião. Mensagens citadas na imprensa apontam que o ministro da Casa Civil, Rui Costa, também teria participado de encontro com Vorcaro.

O nome do ministro ainda surge em narrativas que resgatam a origem de conexões entre o grupo ligado ao Master e operações anteriores na Bahia, em torno do Credcesta e do Banco Pleno, associado a ex-sócios de Vorcaro. Rui Costa defendeu publicamente o fato de o presidente receber representantes de diferentes setores.

Mais nomes

No campo jurídico e institucional, outro nome citado é o do ex-ministro do Supremo e ex-ministro da Justiça Ricardo Lewandowski.

O escritório de advocacia da família Lewandowski foi contratado pelo Banco Master e, segundo os dados reunidos nas reportagens, recebeu valores milionários. A assessoria de Lewandowski declarou que ele deixou a sociedade e suspendeu seu registro na OAB ao assumir o ministério, deixando de atuar nos casos.

No Congresso, a preocupação é dupla. Primeiro, porque mensagens e relatos citam encontros com os presidentes das duas Casas.

O presidente da Câmara, Hugo Motta, aparece em referência a um jantar na residência oficial. O presidente do Senado, Davi Alcolumbre, é mencionado em relatos sobre uma reunião que teria ocorrido na residência oficial da Casa.

Segundo informações apuradas pela Gazeta do Povo, um aliado político de Alcolumbre indicado para gerir um fundo de previdência do Amapá foi preso na investigação do Master. O senador nega ter feito a indicação.

O caso se torna mais sensível porque o mesmo fundo, a Amprev, aplicou R$ 400 milhões em títulos do banco, e o irmão de Alcolumbre é citado como conselheiro do órgão.

O nome de Ciro Nogueira também aparece com frequência. Segundo as mensagens citadas pela imprensa, Vorcaro o chamava de "grande amigo" e comemorou uma proposta legislativa do senador que ampliaria a cobertura do Fundo Garantidor de Créditos para bancos com problemas de caixa.

Em uma das mensagens, o banqueiro escreveu: "Ciro soltou um projeto de lei agora que é uma bomba atômica no mercado financeiro! Ajuda os bancos médios e diminui poder dos grandes! Está todo mundo louco".

Ciro afirmou que conversa com centenas de pessoas e negou ter mantido conduta inadequada em relação ao caso.

A teia ainda alcança o governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha, citado em encontros para discutir a tentativa de venda do Master ao Banco de Brasília, o BRB.

Segundo as mensagens mencionadas nas reportagens, Vorcaro chegou a falar em uma "estratégia de guerra" para tratar da operação. Ibaneis não negou os encontros, mas afirmou que foram pontuais. O BRB acabou comprando R$ 12 bilhões em carteiras de crédito do banco, enquanto a aquisição integral não avançou.

Por que o escândalo é tão sério?

Esse conjunto de relações ajuda a explicar por que o escândalo pode provocar um terremoto em Brasília. O caso não reúne apenas suspeitas de fraude financeira.

Ele encosta em áreas sensíveis do sistema político:

A própria trajetória do Master reforça o impacto político da investigação. A instituição cresceu de forma acelerada depois que Vorcaro comprou um banco em dificuldade e o rebatizou em 2021.

O modelo de negócios passou a chamar atenção por oferecer títulos com retorno acima da média, ao mesmo tempo em que investia em ativos de alto risco, como precatórios e créditos judiciais contra o Estado.

A cobertura do Fundo Garantidor de Créditos ajudava a atrair investidores, mas a situação mudou quando o Banco Central endureceu as regras de capital em 2023. A partir dali, o Master entrou em crise de liquidez.

Em depoimento, o servidor do Banco Central Ailton de Aquino Santos afirmou que, para um banco com R$ 80 bilhões em ativos, o esperado seria manter entre R$ 3 bilhões e R$ 4 bilhões em liquidez em títulos desimpedidos.

Segundo ele, ao examinar as contas do banco em 2024, os reguladores encontraram apenas R$ 4 milhões em caixa. Foi nesse contexto que Vorcaro tentou levantar recursos em fundos de pensão de servidores, articulou saídas no Congresso e buscou vender a instituição a um banco estatal.

As mensagens recuperadas pela investigação dão um retrato da tensão daqueles dias. Em julho, ao falar com a então namorada, Vorcaro chegou a comparar o ambiente bancário a uma organização criminosa e escreveu que "esse negócio de banco (...) é igual à máfia".

Em outro momento, investigadores localizaram conversas que sugerem um plano para intimidar pessoas vistas por ele como adversárias, entre elas um jornalista, com ajuda de um associado apelidado de "Sicario".

A defesa do banqueiro nega irregularidades, fraude, intimidação de jornalistas, cooptação de agentes públicos ou interferência nas investigações.

Na véspera do colapso, o material apreendido também aponta para contatos de emergência. Em uma das mensagens, Vorcaro pergunta: "Conseguiu ter notícia ou bloquear?".

A frase passou a ser tratada em Brasília como símbolo do que mais assusta autoridades: a suspeita de que, nos bastidores, o banqueiro tentava acionar sua rede para evitar prisão, liquidação do banco ou avanço das apurações.

É justamente esse ponto que transforma o escândalo do Master em risco político de primeira grandeza. Quanto mais as investigações avançam, mais difícil fica sustentar a tese de que se trata de um caso restrito ao mercado financeiro.

O que emerge é a imagem de um banqueiro que fez da proximidade com o poder uma ferramenta de sobrevivência empresarial e que, agora, pode arrastar para o centro da crise nomes do Judiciário, do Legislativo e do Executivo.

Em Brasília, o temor não decorre apenas do que já veio a público. Ele se alimenta do que ainda pode surgir dos celulares apreendidos, dos depoimentos pendentes e de eventual delação.

Se esse material confirmar que a rede de Vorcaro não era apenas social ou institucional, mas operava como mecanismo de proteção e influência, o escândalo do Banco Master poderá reordenar disputas entre os Três Poderes, ampliar o desgaste de autoridades e abrir uma nova frente de crise no coração da República.