Como um magnata misterioso se beneficia do fechamento do Estreito de Ormuz

Nas semanas que antecederam o conflito, o grupo Sinokor havia transferido pelo menos seis superpetroleiros vazios para o Golfo Pérsico, onde permaneceram inativos à espera de cargas.

O magnata sul-coreano Ga-hyun Chung, descrito como uma figura enigmática no mundo da navegação, vem comprando há meses grandes quantidades de petroleiros. A aposta sem precedentes abalou o mercado naval mundial ainda antes do início da guerra dos EUA e de Israel contra o Irã, informou a Bloomberg no sábado (14).

Nas semanas que antecederam o conflito, o grupo Sinokor, de Chung, havia transferido pelo menos seis superpetroleiros vazios para o Golfo Pérsico, onde permaneceram inativos à espera de cargas. Agora, com as exportações pelo estreito bloqueadas e o armazenamento regional prestes a se esgotar, a empresa está alugando navios a preços exorbitantes de US$ 500 mil por dia para armazenar petróleo, quase dez vezes mais do que em 2025.

Desde que os EUA e Israel atacaram o Irã, o mercado de petroleiros tornou-se cada vez mais restrito, já que os navios são obrigados a mudar de rota e uma parte significativa da frota permanece presa no Estreito de Ormuz.

A interrupção do transporte marítimo demorará a ser resolvida mesmo após o fim das hostilidades, o que manterá as tarifas elevadas por mais tempo e gerará enormes lucros para empresas de navegação como a Sinokor.

Uma aposta sem precedentes

A última rodada de aquisições da Sinokor ocorreu de forma rápida e agressiva. Em questão de semanas, a empresa adquiriu ou fretou um grande número de superpetroleiros, o que lhe conferiu um nível de influência no mercado que, segundo veteranos do setor, não tem precedentes.

O mundo do transporte marítimo ficou atônito. O custo de alugar um superpetroleiro em qualquer parte do mundo disparou para níveis recordes, à medida que as companhias marítimas reagiram com reservas em pânico, enquanto circulavam rumores sobre a magnitude e o propósito da aposta.

Esse cenário ocorreu em um momento em que um número crescente de petroleiros estava sendo afetado por sanções ou sendo utilizado como armazéns flutuantes, o que reduzia cada vez mais a disponibilidade de navios para aluguel.

A empresa sul-coreana continuou adquirindo petroleiros e, no final de fevereiro, alguns concorrentes estimavam que a Sinokor controlava cerca de 150 superpetroleiros, um número que equivalia a quase 40% dos navios desse tipo que, naquele momento, não estavam sob sanções nem imobilizados.

Estreito de Ormuz

Enquanto a Sinokor adquiria embarcações, algumas foram transferidas para o Golfo Pérsico. Em 29 de janeiro, o Singapore Loyalty, operado pela Sinokor, atravessou o Estreito de Ormuz, onde ficou à espera, vazio, no golfo. Nas quatro semanas seguintes, pelo menos mais cinco navios começaram a esperar juntos, agrupados perto de Dubai (Emirados Árabes Unidos).

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Em 2 de março, após a agressão dos EUA e de Israel contra a República Islâmica — que deixou o estreito de Ormuz paralisado e o abastecimento energético do Oriente Médio interrompido para o resto do mundo —, as tarifas dos navios-tanque dispararam ainda mais.

Agentes marítimos informaram que a Sinokor cobrava o equivalente a cerca de US$ 20 por barril para transportar petróleo da região para a China em seus superpetroleiros, um valor exorbitante em comparação com uma média de cerca de US$ 2,50 no ano anterior.

Além disso, as embarcações da Sinokor estavam entre os poucos petroleiros vazios disponíveis para serem alugados pelas empresas petrolíferas desesperadas por obter espaço de armazenamento adicional.

"Um pouco de sorte"

Duas semanas depois, muitos dos navios já pareciam ter carregado petróleo. Como o Estreito de Ormuz permanece praticamente fechado ao tráfego, os navios são usados como depósitos flutuantes, o que sugere que continuarão gerando para a Sinokor US$ 500 mil por dia enquanto durar a guerra.

Quando a empresa iniciou sua onda de compras em janeiro, adquiriu uma série de navios de outro armador a um preço médio de 88 milhões de dólares. Um desses navios está carregando mercadorias no Golfo e, com um contrato de US$ 500 mil por dia, teria se amortizado em menos de meio ano se essas tarifas fossem mantidas.

Ainda não há garantia de que a aposta de Chung seja um sucesso a longo prazo. Embora o conflito tenha abalado os mercados de petroleiros, ele também está gerando o que a Agência Internacional de Energia descreveu como a maior interrupção no abastecimento registrada até o momento, um efeito que, com o tempo, se traduzirá em menos petróleo nos oceanos do mundo.

Por enquanto, no entanto, a Sinokor está obtendo enormes lucros tanto dentro quanto fora do Golfo. De acordo com dados da Tankers International, uma reserva recente foi feita a uma taxa de US$ 181 mil por dia a partir do Brasil, aproximadamente o triplo dos ganhos diários médios dos superpetroleiros no ano passado.

"Uma boa posição exige um pouco de estratégia e um pouco de sorte", afirmou Carl Larry, analista do setor petrolífero da Enverus, empresa de tecnologia e dados especializada no setor energético. A grande aposta da Sinokor nos navios-tanque "acabou sendo excepcionalmente vantajosa", acrescentou.

Guerra no Oriente Médio