Qual é a importância da 'joia' petrolífera do Irã e o que acontecerá se os EUA destruí-la?

A última vez que a ilha de Kharg sofreu um ataque de grande porte foi durante a guerra entre Irã e Iraque, na década de 1980.

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, declarou na sexta-feira (13) que as Forças Armadas do país realizaram "um dos bombardeios mais devastadores da história do Oriente Médio". O alvo, entre outras instalações, foi a ilha de Kharg. O local é essencial para o comércio iraniano, pois é responsável por 90% das exportações de petróleo bruto do país.

A ilha, localizada entre 25 e 30 km da costa iraniana, ao norte do Golfo Pérsico, funciona como terminal de exportação de petróleo desde a década de 1960. Antes do ataque, o terminal movimentava cerca de 1,5 milhão de barris por dia, um volume superior à produção total de muitos países da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP).

A última vez que a ilha sofreu um ataque de grande magnitude foi durante a guerra entre Irã e Iraque, na década de 1980. Na ocasião, o Exército iraquiano, sob o comando de Saddam Hussein, lançou bombardeios contra a infraestrutura petrolífera da ilha, causando graves danos. No entanto, o Irã reconstruiu as instalações.

Segundo Mohammad Marandi, professor da Universidade de Teerã e ex-assessor da equipe de negociação nuclear do Irã, do ponto de vista de incursões militares por terra, "a ilha está bem protegida". Sua posição geográfica também seria desfavorável para Washington, já que Kharg "fica longe da Marinha dos Estados Unidos e mais perto da costa iraniana".

Coração petrolífero do Irã

As águas profundas que cercam a ilha proporcionam as condições necessárias para que grandes petroleiros atraquem, ao contrário de outros pontos do Golfo Pérsico.

O local possui instalações de armazenamento e oleodutos que conectam alguns dos maiores campos de petróleo e gás do Irã. Portanto, interromper seu funcionamento prejudicaria não apenas o país persa, mas também afetaria negativamente o mercado energético mundial.

De acordo com autoridades iranianas citadas pela Bloomberg, a partir de Kharg é possível carregar mais de 6 milhões de barris por dia, e a capacidade poderia chegar a até 10 milhões de barris, se necessário.

A ilha é habitada principalmente por trabalhadores do setor petrolífero, que se deslocam por uma pista operada pela Companhia Nacional Iraniana de Petróleo. O Irã fornece cerca de 4,5% do petróleo mundial, com uma produção diária de 3,3 milhões de barris de petróleo bruto e 1,3 milhão de barris de condensado e outros hidrocarbonetos.

Trump anunciou que os bombardeios de Washington "destruíram completamente todos os alvos militares na chamada joia da coroa do Irã", enquanto seus tanques de armazenamento ou pontos de carregamento não foram atingidos. O republicano acrescentou que, se o Irã ou outros países interferirem na passagem de navios pelo Estreito de Ormuz, reconsiderará imediatamente a decisão de não atingir a infraestrutura petrolífera da ilha.

A Guarda Revolucionária iraniana confirmou que a infraestrutura da ilha não sofreu danos. Segundo o ex-general de brigada do Exército dos Estados Unidos Mark Kimmitt, Washington passou de "um simples 'eliminar o Exército, eliminar o regime'" para tentar aniquilar "o motor econômico do país", mantendo supostamente a ilha "como refém" para garantir que o Irã permita a passagem de navios pelo Estreito de Ormuz.

O que significaria destruir a ilha?

Se Washington decidisse destruir sistematicamente a infraestrutura de exportação de Kharg — tanques, oleodutos internos, pontos de carregamento e sistemas de bombeamento —, o impacto seria duplo: asfixia econômica para o Irã e um "choque" energético global.

Diante das novas ações militares dos EUA, o presidente do Parlamento iraniano, Mohammad Bagher Ghalibaf, advertiu que os ataques contra as ilhas situadas na fronteira marítima sul do Irã levariam a República Islâmica a "abandonar toda a moderação".

Integrantes do quartel-general de Jatam al Anbiya alertaram que, em caso de ataque às infraestruturas petrolíferas, econômicas e energéticas iranianas, "imediatamente todas as infraestruturas petrolíferas, econômicas e energéticas pertencentes a empresas petrolíferas em toda a região que tenham participações americanas ou colaborem com os Estados Unidos serão destruídas e transformadas em um monte de cinzas".

"Extrema vulnerabilidade"

O professor da Universidade de Teerã Mohammad Marandi alertou para a extrema vulnerabilidade dos aliados árabes dos EUA. "Kuwait, Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Bahrein e Catar são, em grande parte, desertos. Tudo o que têm é petróleo e gás, nem sequer têm água. Estão completamente vulneráveis à retaliação iraniana", observou, acrescentando que, se esses países facilitassem uma invasão do território iraniano, "seriam severamente punidos".

Ao avaliar a possibilidade de Washington atacar Kharg, Marandi afirmou que uma ofensiva desse tipo seria, ao mesmo tempo, extremamente dispendiosa, militarmente arriscada e inútil.

Em primeiro lugar, o professor destacou as dificuldades de acesso, já que os EUA teriam que "utilizar o território ou sobrevoar o território" dos aliados americanos no Golfo Pérsico, o que obrigaria o Irã a responder.

Nesse caso, se o território iraniano fosse ocupado, isso "levaria a guerra a uma grande escalada", pelo que os países da região "teriam de pagar um preço muito alto, muito maior do que o que estão pagando agora".

Ele enfatizou que, mesmo no caso hipotético de os EUA assumirem o controle da ilha, isso não melhoraria o mercado global de energia — pelo contrário, o pioraria. Tampouco traria avanços na situação do Estreito de Ormuz, porque se a guerra se espalhar por todo o Golfo Pérsico, as instalações petrolíferas dos países do Golfo "seriam destruídas", de modo que, mesmo que o estreito fosse reaberto, "não haveria petróleo nem gás para transportar, nem navios-tanque para fazer o transporte".

Marandi concluiu que seria "uma medida ridícula, logisticamente muito difícil, senão quase impossível, na qual as defesas iranianas destruiriam muitas das capacidades militares dos Estados Unidos" e cujos efeitos seriam "muito prejudiciais devido às consequências a longo prazo que teria para os mercados globais".