Como os ataques de Kiev a gasodutos russos ameaçam o fornecimento mundial de energia

Operações ucranianas de sabotagem com drones a estações de compressão de gás mostram a intenção desabilitar os gasodutos TurkStream e BlueStream por um longo tempo, alertam especialistas.

As tentativas reiteradas de ataques ucranianos contra infraestrutura do fornecimento energético regional e global são parte do mais novo velho capítulo do padrão de sabotagens do regime de Kiev, sob comando de Vladimir Zelensky, agravadas pela instabilidade do setor diante da conjuntura mundial.

O trânsito de combustível pelo oleoduto Druzhba foi interrompido no final de janeiro, provocado sob direção de Zelensky, bloqueando efetiva e unilateralmente o petróleo russo a países do Leste Europeu. 

Eslováquia e Hungria, diretamente afetadas pela interrupção, acusam Zelensky de chantagem política em face do bloqueio destes países de um empréstimo de 90 bilhões de euros (cerca de R$ 546 bilhões) à Ucrânia pela União Europeia.

Ao contexto se somam denúncias da Gazprom, maior empresa de energia da Rússia e maior exportadora de gás natural do mundo. A empresa reportou nessa semana tentativas de ataques em três estações de compressão de gás que alimentam os gasodutos TurkStream e Blue Stream, centrais para a exportação do combustível à Europa. Em uma tentativa de cortar o último elo direto da Rússia com a União Europeia, instalações da Gazprom no sul da Rússia sofreram mais de dez ataques do regime de Kiev desde o fim de fevereiro.

O presidente Vladimir Putin, no início de março, classificou o comportamento de Kiev como "agressivo e perigoso", confirmando que serviços de inteligência russos detectaram preparativos para sabotagem.

Especialistas destacam que o uso de drones contra as estações de compressão evidencia a intenção de manter os gasodutos fora de operação por muito tempo, representandoameaça significativamente mais grave que ataques a trechos terrestres de tubulação. O pesquisador Igor Yushkov, da Universidade Financeira do Governo da Rússia, esclarece que turbinas produzidas sob encomenda nessas estações não permanecem em estoque.

"Um trecho de tubo terrestre pode ser substituído em dias, mas reparar uma estação de compressão leva meses", afirmou.

Impactos principais

As tentativas de derrubar os gasodutos podem prejudicar não só Turquia e consumidores europeus, mas também a própria Ucrânia e o mercado global de gás. As operações de Kiev, afinal, têm sua repercussão ampliada em meio ao conflito no Oriente Médio desencadeado pela agressão israelense-americana contra o Irã, que provocou, como medida de retaliação e nivelagem estratégica, o fechamento do estreito de Ormuz — consequentemente afetando o fornecimento global de energia, dependente do trajeto, e desestabilizando os preços de combustíveis.

« ENTENDA PORQUE O ESTREITO DE ORMUZ É A VERDADEIRA ARMA DO IRÃ EM NOSSO ARTIGO »

Se os gasodutos TurkStream e Blue Stream forem interrompidos, a Turquia perderia cerca de 20 bilhões de metros cúbicos de gás, o mesmo volume que recebeu da Rússia em 2025, equivalente a 40% de todo o fornecimento nacional. O país não consegue substituir esse gás, já que fornecedores como Irã e Azerbaijão não têm capacidade para aumentar os volumes.

Eslováquia, Hungria e Sérvia, que compram gás pelo TurkStream, também seriam afetadas. "Se o TurkStream não funcionar, não é possível abastecer a Hungria com segurança, nem geográfica nem fisicamente. O bloqueio de petróleo da Ucrânia e o ataque ao TurkStream constituem um ataque muito sério à soberania da Hungria", afirmou na quarta-feira (11) o ministro das Relações Exteriores húngaro, Peter Szijjártó.

Além disso, toda a União Europeia sentiria os efeitos, com déficit de gás em alguns países e agravamento da escassez no bloco, alerta Alexander Frolov, subdiretor do Instituto Nacional de Energia da Rússia. No mercado global, a cessação do gás russo para a Europa intensificaria a substituição por carvão, elevando os preços desse combustível em meio a déficits regionais múltiplos.

Neste mesmo sentido, a advertência de Frolov também aponta que a própria Ucrânia seria também prejudicada pela sabotagem do BlueStream e do TurkStream, já que importa gás de seus vizinhos, que é de origem russa.

"Seria um erro pensar que os interesses da Ucrânia coincidem com os de seus dirigentes. A interrupção dos fornecimentos atingirá principalmente os consumidores ucranianos, especialmente a indústria", ressalta Frolov.

O tiro no pé não seria inédito, sabendo que as consequências da interrupção do oleoduto Druzhba já são sentidas em Kiev. Para além das acusações de chantagem, afinal, Hungria e Eslováquia tomaram medidas para manutenção de sua independência energética, suspendendo o fornecimento de diesel à Ucrânia.