
Governo Lula teme impacto econômico com classificação nos EUA de PCC e CV como terroristas

O governo Lula avalia que a eventual classificação do Primeiro Comando da Capital (PCC) e do Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas pelos Estados Unidos exporia empresas brasileiras e o sistema financeiro nacional a medidas unilaterais de Washington, segundo fontes da Folha de São Paulo, citadas na sexta-feira (13).
Dentre as preocupações, figura a possibilidade de que as legislações antiterrorismo norte-americanas atinjam não apenas as facções, mas também pessoas e instituições financeiras que possuam ou tenham conhecimento de fundos relacionados a essas organizações, podendo se refletir negativamente em outras áreas da cooperação bilateral.

Em paralelo, os Estados Unidos propuseram que o Brasil receba, em prisões brasileiras, estrangeiros capturados em território norte-americano, além de cobrar um plano contra PCC, CV, Hezbollah e organizações criminosas chinesas.
O Planalto tem atuado para convencer os norte-americanos a postergar a decisão, ao menos até um encontro previsto entre Lula e Trump, ainda sem data confirmada, adiado desde o início das hositilidades americano-israelenses contra o Irã em 28 de fevereiro.
Especialistas alertam para riscos à soberania nacional caso a medida seja implementada. "Vamos abrir um flanco para que, no futuro, possa haver algum tipo de operação secreta, da CIA ou de forças especiais, na fronteira ou mesmo dentro do território brasileiro", declarou o promotor de Justiça Lincoln Gakiya, que investiga a atuação do PCC há mais de 20 anos.
Para o promotor, as facções brasileiras devem ser classificadas como organizações criminosas de tipo mafioso, e não como grupos terroristas, pois a definição internacional de terrorismo exige motivação ideológica ou política.
Enquadro hemisférico
O Departamento de Estado dos Estados Unidos já havia afirmado, em nota divulgada em 10 de março, que o PCC e o CV representam "ameaças significativas à segurança regional" devido ao envolvimento com tráfico de drogas, violência e crime transnacional. Apesar das declarações, a pasta não confirmou se há interesse em classificar as organizações como terroristas naquele momento.
A proposta de classificação se apresenta como o mais novo velho capítulo da estratégia de projeção de poder dos Estados Unidos na América Latina, alinhada à política externa antinarcóticos de cunho militar e às diretrizes de realinhamento do Hemisfério Ocidental como área de influência, nos termos de sua nova estratégia de defesa.
Durante a cúpula "Escudo das Américas", realizada em 7 de março em Miami, Trump anunciou a formação da "Coalizão das Américas contra os Cartéis", com participação de 17 países, prometendo usar "força militar letal para destruir de uma vez por todas os sinistros cartéis e redes terroristas". O encontro reuniu líderes de países como Argentina, El Salvador, Equador e Panamá, mas deixou de fora México, Colômbia e Brasil.

