O governo dos Estados Unidos propôs que o Brasil receba, em prisões brasileiras, estrangeiros capturados em território norte-americano, informou a Folha de S.Paulo nesta sexta-feira (13). A iniciativa faz parte de uma proposta de cooperação bilateral para o combate a organizações criminosas transnacionais em negociação entre os dois países.
Segundo um alto funcionário americano ouvido pelo jornal, a medida segue modelo adotado por El Salvador, que mantém estrangeiros detidos na penitenciária de segurança máxima Cecot. A cooperação entre os governos é discutida como possível anúncio durante visita do presidente Luiz Inácio Lula da Silva aos Estados Unidos para encontro com o presidente Donald Trump. A viagem, inicialmente prevista para março, agora deve ocorrer em abril.
Exigências de Washington
Além da proposta sobre detentos estrangeiros, os Estados Unidos pedem que o Brasil apresente um plano para combater organizações criminosas que atuam no país. Entre os grupos citados estão o Primeiro Comando da Capital (PCC), o Comando Vermelho (CV), o Hezbollah e organizações criminosas chinesas.
O governo norte-americano também solicita que o Brasil compartilhe informações sobre estrangeiros que buscam refúgio ou que já são refugiados no país, incluindo dados biométricos. Segundo autoridades do país, a medida integra esforços para combater a criminalidade transnacional e impedir rotas de imigração em massa por portos e fronteiras brasileiras.
Proposta brasileira
As demandas americanas surgiram como resposta a um plano de cooperação apresentado anteriormente pelo governo brasileiro. A iniciativa foi sugerida pelo presidente Lula durante um telefonema com Donald Trump em 2025, que marcou uma trégua nas tensões entre os dois países após disputas comerciais relacionadas a tarifas.
Entre os pontos propostos pelo Brasil estão o aumento da cooperação para combater lavagem de dinheiro e o bloqueio de ativos nos Estados Unidos provenientes de recursos ilícitos de brasileiros. O plano também prevê maior integração entre a Receita Federal e o Internal Revenue Service (IRS), além do reforço da fiscalização contra o tráfico de armas e da troca de informações sobre transações com criptoativos.
Negociações em andamento
As exigências americanas não foram aceitas pelo Brasil até o momento. Os dois governos seguem negociando uma proposta comum que possa ser anunciada pelos presidentes durante a visita oficial a Washington.
O governo brasileiro também busca evitar que os Estados Unidos classifiquem o PCC e o CV como organizações terroristas. Washington já decidiu adotar essa designação. Na avaliação do governo Lula, a medida poderia abrir brechas legais para intervenções americanas em território brasileiro e gerar repercussões políticas internas.
De acordo com a Folha, PCC e CV já estão presentes em todos os estados brasileiros e exercem hegemonia em ao menos 13 deles. As facções também ampliaram sua atuação internacional: o CV mantém negócios em pelo menos oito países da América Latina, enquanto o PCC tem presença em ao menos 16 nações.