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Cassino em Camboja escondia centro de golpes com sala que imitava delegacia da Polícia Federal do Brasil

Instalação fazia parte de complexo usado por cibercriminosos na fronteira com a Tailândia; local também tinha cenários policiais de outros países.
Cassino em Camboja escondia centro de golpes com sala que imitava delegacia da Polícia Federal do BrasilRafa Neddermeyer/Agência Brasil

Uma sala montada para imitar uma delegacia da Polícia Federal do Brasil foi encontrada dentro de um centro de golpes on-line abandonado na região de O’Smach, na fronteira entre Camboja e Tailândia, informou a Bloomberg na quinta-feira (12). O local foi identificado após forças tailandesas avançarem sobre a área durante confrontos fronteiriços no fim de 2025.

O espaço fazia parte de um complexo utilizado por criminosos envolvidos em esquemas virtuais que operavam a partir do Sudeste Asiático, região considerada um dos principais polos mundiais desse tipo de crime.

Durante uma visita organizada pelo Exército da Tailândia na quinta-feira, jornalistas encontraram vestígios de uma saída apressada: monitores quebrados, uniformes falsos de polícia, notas falsas de cem dólares e escritórios montados para simular delegacias de diferentes países, incluindo Brasil, Austrália, Canadá e Índia.

Centros de golpe e fuga de suspeitos

De acordo com militares tailandeses, as instalações funcionavam atrás de cassinos na área e eram usadas como centros para aplicar golpes on-line, incluindo esquemas de romance e de investimentos em criptomoedas.

A polícia tailandesa não detalhou qual era exatamente o papel da falsa delegacia brasileira nas operações.

O porta-voz do Ministério da Defesa da Tailândia, Surasant Kongsiri, afirmou que a descoberta ocorreu durante ações militares contra posições cambojanas na região.

"Foi por coincidência; o ataque a essas instalações ocorreu porque eram usadas como bases militares pelas forças cambojanas", disse. Segundo ele, ao avançar no território, os militares "descobriram que as instalações atrás dos cassinos eram centros de golpes".

O Exército tailandês estima que cerca de 20 mil pessoas que viviam no local fugiram antes dos ataques com mísseis.

Disputa entre Tailândia e Camboja

A área de O’Smach foi ocupada por tropas da Tailândia após confrontos de três semanas na fronteira disputada entre os dois países em dezembro de 2025. Desde então, militares tailandeses mantêm presença no local, apesar de pedidos do Camboja para a retirada das tropas.

O ministro da Informação cambojano, Neth Pheaktra, acusou a Tailândia de usar o combate aos golpes on-line como justificativa para manter controle sobre a área.

Em comunicado, ele afirmou que as ações representam uma "anexação de fato" do território cambojano e classificou a situação como "um uso perigoso de narrativas de aplicação da lei para justificar incursões militares".

Estrutura ligada a cassinos

Os centros visitados pelos jornalistas ficavam em frente ao resort e cassino O’Smach, propriedade do senador e empresário cambojano Ly Yong Phat.

Em 2024, ele foi alvo de sanções dos Estados Unidos pelo suposto envolvimento de empresas ligadas a ele em "graves abusos de direitos humanos relacionados ao tratamento de trabalhadores traficados submetidos a trabalho forçado em centros de golpes online", segundo autoridades americanas.

Ly Yong Phat negou as acusações em novembro, afirmando que as reportagens que o ligam a redes de crimes cibernéticos e lavagem de dinheiro são "falsas e prejudiciais à sua reputação".

Nos prédios abandonados, também foram encontrados roteiros usados em ligações fraudulentas e listas com números de telefone de possíveis vítimas em diversos países. Segundo militares tailandeses, o local abrigava dormitórios e escritórios usados por golpistas de diferentes nacionalidades, incluindo vietnamitas e indonésios.