
Israel arquiva processo contra soldados acusados de brutalizar sexualmente prisioneiro palestino

As Forças de Defesa de Israel (IDF) retiraram na quinta-feira (12) as acusações contra soldados acusados de estuprar um prisioneiro palestino em um centro de detenção de guerra na base de Sde Teiman, relatou o jornal The New York Times.
O incidente está relacionado a eventos ocorridos em julho de 2024 na base militar no sul de Israel, onde cinco reservistas foram investigados por abuso e por causar lesões graves, incluindo costelas quebradas, perfuração do pulmão esquerdo e laceração retal, embora a acusação final não incluísse especificamente crimes sexuais.

A acusação afirmava que um dos soldados esfaqueou o detido perto do reto com um objeto pontiagudo. O detido foi posteriormente levado ao hospital em estado grave.
O caso ganhou notoriedade após a principal oficial jurídica das forças armadas, major-general Yifat Tomer-Yerushalmi, renunciar em outubro devido ao vazamento de imagens de vigilância mostrando os supostos abusos de um detento palestino com os olhos vendados sendo agredido. A oficial justificou o vazamento como tentativa de evitar o abandono da acusação, mas membros do governo do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu utilizaram o episódio para desacreditar o processo e os advogados de defesa exigiram seu encerramento por comprometimento das evidências.
A IDF afirmou que os promotores retiraram a acusação, alegando provas insuficientes para garantir uma condenação e questões processuais diante do vazamento. Os militares também disseram que a suposta vítima havia sido devolvida a Gaza, criando incerteza sobre se ele seria capaz de testemunhar no julgamento.
Netanyahu, na quinta-feira, celebrou a decisão do novo oficial jurídico militar, major-general Itai Ofir, classificando o processo como "calúnia sangrenta" que "difamou Israel mundialmente".
"É inaceitável que tenha demorado tanto para encerrar o caso, que foi tratado de forma criminosa contra combatentes das Forças de Defesa de Israel que enfrentam os piores de nossos inimigos. O Estado de Israel deve perseguir seus inimigos, não seus guerreiros heróicos", escreveu o premiê.
Abusos sistemáticos
A ONU, a partir de um comitê especial de investigação, já havia expressado horror diante de violações contra palestinos sob custódia israelense e os níveis de impunidade para soldados envolvidos em comportamentos desumanizantes, cruéis e humilhantes, em junho de 2024.
O Comitê relatou ter recebido relatos de múltiplas fontes sobre aumento em assédio sexual, abuso sexual, ameaças de estupro e estupro propriamente dito, inclusive com objetos estranhos, contra homens, mulheres e até crianças.
Em janeiro de 2026, a ONG israelense B'Tselem publicou um relatório baseado em testemunhos de 21 detentos palestinos, revelando que sete deles relataram violência sexual, incluindo despimento forçado, golpes nos genitais e penetração anal. O jornalista palestino Sami Al-Sa'i, detido por 16 meses sem acusação formal, relatou publicamente ter sido estuprado com objetos durante sua detenção em 2024, assumindo o risco pessoal de expor sua história como "dever moral".
A B'Tselem identificou formalmente 84 palestinos mortos em prisões israelenses desde outubro de 2023, comparado a 237 mortes entre 1967 e 2023, evidenciando aumento de dez vezes na taxa mensal de óbitos. A organização denunciou política sistemática e institucionalizada de tortura aprovada pelo sistema político, judicial, mídia e autoridades prisionais. Ao jornal francês Le Monde, em resposta ao relatório, oficiais de Israel negaram quaisquer maus-tratos, afirmando agir conforme legislação nacional e internacional.

