UE deveria lutar para não seguir 'sequestrada por Trump', afirma vice-premiê da Espanha

Yolanda Díaz acredita que o mandatário norte-americano constituiu uma ameaça existencial para o bloco e critica silêncio europeu sobre a guerra no Irã.

A segunda vice-presidente do governo da Espanha e ministra do Trabalho, Yolanda Díaz, criticou nesta quinta-feira (12) os líderes da União Europeia (UE) diante da agressão dos EUA e de Israel contra o Irã por mostrarem uma atitude "servil" em relação ao presidente norte-americano, Donald Trump.

"A Europa está órfã em um momento de gravidade histórica", disse em entrevista ao portal Politico a líder do partido Sumar, parceiro minoritário do governo de coalizão liderado pelo presidente do governo, Pedro Sánchez.

A UE "deveria lutar por uma Europa política, uma Europa econômica, uma Europa social, uma Europa fiscal, uma Europa que tenha sua própria política externa, que tenha sua própria política de autodefesa e que não esteja sequestrada por Trump", afirmou Díaz.

Em seu critério, Bruxelas deveria se opor com firmeza a uma guerra "completamente ilegítima" no Irã e criticou a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, por não defender os princípios do direito internacional, a Carta das Nações Unidas e os valores fundacionais da UE.

"A Europa deve apoiar o direito internacional, os direitos humanos e a democracia", sustentou. E acrescentou: "dados os tempos que vivemos, nenhum de nós pode se dar ao luxo de permanecer em silêncio".

A política espanhola apontou que os cidadãos europeus são contra a guerra e que o apoio das instituições comunitárias "poderia acabar fomentando o sentimento eurocético que, muitas vezes, também impulsiona o crescimento da extrema direita".

O que a deixou orgulhosa foi a negativa da Espanha em respaldar a ofensiva militar iniciada por Washington e Tel Aviv, além da defesa que Madri faz dos "direitos humanos, da dignidade e da decência em todo o mundo".

"Dizia explicitamente que já estava farto de nós"

Na avaliação de Díaz, Trump representa uma ameaça existencial para a UE. Nessa linha, ela se referiu especificamente à Estratégia de Segurança Nacional publicada em dezembro pelo governo americano: "Criticava a Europa e dizia explicitamente que já estava farto de nós".

A vice-presidente do governo considerou que as declarações públicas do presidente dos EUA destilam uma profunda animosidade em relação ao bloco europeu. "Tudo o que ele faz tem tons de loucura, mas, no fundo, suas ações são motivadas por interesses econômicos nos EUA", pontuou.

Nesse sentido, criticou os líderes da UE por sua atitude "servil" em relação a Trump, um enfoque inútil, em sua opinião, "porque está claro que o senhor Trump não respeita quem tenta ser seu vassalo". "A Europa precisa acordar de uma vez por todas", defendeu.

Espanha frente a Trump

Díaz afirmou que a Espanha "não tem medo" de enfrentar o presidente americano e que não se intimida com as ameaças de corte nos laços comerciais. Pelo contrário, apostou em ser "audaz" na resposta.

Esta semana, a política espanhola criticou duramente o chanceler alemão, Friedrich Merz, pelo silêncio que manteve na Casa Branca enquanto Trump atacava a Espanha e prometia represálias econômicas, como o corte do intercâmbio comercial, diante da postura do governo de Pedro Sánchez sobre o Irã.

As palavras de Díaz estão alinhadas com a postura adotada nos últimos tempos pelo presidente do governo da Espanha, que se tornou o principal crítico de Trump na Europa após negar ao Exército norte-americano o uso das bases militares no país para o ataque ao Irã.

Desde então, Sánchez classificou a agressão dos EUA como ilegal e violadora do direito internacional, apostando na desescalada do conflito e no retorno à mesa de negociações, ao mesmo tempo em que se recusou a participar ou apoiar de qualquer maneira as operações militares.