Projeção de poder e (também) alvo inimigo: onde estão os militares americanos no Oriente Médio

Do Bahrein à Turquia, os EUA operam uma vasta rede de bases aéreas, navais e terrestres no Oriente Médio, alvejadas pelo Irã em uma guerra que ameaça reconfigurar a arquitetura de segurança na região.

Uma das estratégias militares centrais do Irã em um confronto com os Estados Unidos no Oriente Médio consiste em atingir bases militares e postos operacionais das Forças Armadas dos EUA no Golfo Pérsico, desde o início de sua retaliação à agressão americano-israelense em 28 de fevereiro. 

Essas ações implicam em uma tarefa ambiciosa por definição — que seja simplesmente pela dimensão da presença americana.

O destacamento dos Estados Unidos na região representa uma das mais extensas redes de projeção de poder já estabelecidas fora de um território nacional. Suas forças armadas mantêm atualmente entre 40 e 50 mil militares distribuídos em dezenas de instalações que se estendem do Mediterrâneo ao Índico, do Nilo ao Eufrates, formando um sistema integrado de bases aéreas, navais e terrestres que sustenta as operações americanas na região há décadas.

O epicentro dessa rede é o entorno do Golfo Pérsico, a maior reserva individual de petróleo do planeta, onde os EUA mantêm bases em todos os países do Golfo com exceção do Irã.

As forças iranianas, no mais recente confronto, escolheram deliberadamente atacar essa rede como ponto de pressão estratégica, atingindo instalações no Bahrein, Catar, Kuwait e Emirados Árabes Unidos, a partir de uma lógica calculada de coerção aos americanos.

A estratégia implica consequências diretas de desmonte de seus pontos de projeção e indiretas ao elevar o custo econômico, humano e político da guerra para Washington e para os governos que hospedam essas forças.

Onde estão localizadas?

A Base Aérea Al Udeid, no Catar, representa a maior instalação dos EUA na região, ocupando aproximadamente 24 hectares e abrigando cerca de 10 mil militares. Estabelecida em 1996, antes mesmo de que o Catar tivesse sua própria força aérea, funciona como quartel-general avançado do Comando Central dos Estados Unidos (CENTCOM) e possui capacidade para acomodar quase 100 aeronaves e drones. Além de Al Udeid, o país também sedia o Camp As Sayliyah, instalação do Exército americano que funciona como ponto de pré-posicionamento de equipamentos blindados.

No Bahrein, a Naval Support Activity hospeda cerca de 9 mil funcionários do Departamento de Defesa, servindo como sede da Quinta Frota da Marinha americana. Instalada em 1971 no antigo sítio naval britânico HMS Jufair, esta instalação comanda operações no Golfo, Mar Vermelho, Mar Arábico e porções do Oceano Índico, representando a espinha dorsal da projeção naval americana na região.

Adicionalmente, as bases aéreas de Muharraq, localizada no Aeroporto Internacional do Bahrain, e a de Sheik Isa, no sudeste da ilha, também são operadas pelas forças armadas dos EUA.

O Camp Arifjan, no Kuwait, constitui o principal centro logístico do Exército americano, localizado 55 quilômetros a sudeste da capital. Erguido em 1999 pelo governo kuwaitiano para substituir a estrutura temporária utilizada desde a Guerra do Golfo, ele funciona como polo de suprimentos e comando para operações militares na área de responsabilidade do CENTCOM, abrigando equipamento pré-posicionado que permite rápido desdobramento de forças sem necessidade de transporte dos Estados Unidos.

Além de Arifjan, as bases de Al Salem, Buehring e Patriot abrigam, no total, mais de 13.500 soldados, tornando o Kuwait o segundo país com maior concentração de tropas americanas no Golfo, desbancado somente pelo Catar.

A Base Aérea Al-Dhafra, nos Emirados Árabes Unidos, é um pólo focado em vigilância. Operante desde 1983, é responsável por reconhecimento, coleta de inteligência e apoio a operações aéreas de combate. Ela hospeda aeronaves avançadas como caças furtivos F-22 Raptor e sistemas aerotransportados de alerta e controle (AWACS). 

Os Emirados Árabes também sediam o Porto de Jebel Ali, o maior porto artificial de águas profundas do mundo e o mais frequentado pela Marinha americana, capaz de atracar porta-aviões; e a base naval de Fujairah, que salvaguarda o segundo maior centro de abastecimento de combustíveis marítimos do mundo, cuja saída para o Golfo de Omã oferece um escape ao oleoduto Habshan-Fujairah do bloqueio do estreito de Ormuz.

No Iraque, a retirada completa das tropas americanas havia sido anunciada em janeiro de 2026, quando o exército do Iraque reassumiu controle integral. As estruturas anteriormente operadas pelos EUA incluem o Complexo de Bases Vitória (VBC, na sigla em inglês) — que circunda o Aeroporto Internacional de Bagdá, na capital, e funcionava como quartel-general das operações dos EUA no Iraque —, além das bases de Erbil e Ayn Al Asad, utilizadas para operações contra o Estado Islâmico* e assessoramento a forças locais.

Uma missão da OTAN assumiu o autoridade sobre o controle da base avançada (FOB) Union III, em Bagdá, ainda em agosto do ano passado. Diversos países da aliança, contudo, retiraram suas tropas da região após o início das hostilidades, prezando pela integridade de seus soldados.

A Jordânia abriga a Base Aérea Muwaffaq al Salti, que hospeda a 332ª Ala Aérea Expedicionária da Força Aérea Central americana, além de contingentes de parceiros de coalizão como Alemanha, Países Baixos e Bélgica.

As tropas americanas ali estacionadas são engajadas em missões através do Levante, que compreende a região do Mediterrâneo asiático oriental.

Em Omã —, o primeiro país do Golfo a firmar parceria militar explícita com os EUA, em 1980 —, os americanos têm acesso a múltiplas instalações militares, como as bases aéreas de Masirah e Thumrait.

O contingente também inclui pontos estratégicos para controle das rotas comerciais marítimas, como o Porto de Duqm, doca naval britânico-omanense, capaz de receber porta-aviões e submarinos dos EUA, e o porto de Salalah, que realiza atividades de armazenamento e entrega para a Marinha americana.

Na Arábia Saudita, aproximadamente 2.300 soldados americanos operam na Base Aérea Prince Sultan, a mais antiga do complexo de bases permanentes, construída em 1951. Localizada a 60 quilômetros ao sul da capital, Riad, mantendo baterias de mísseis Patriot e sistemas de Defesa de Área de Alta Altitude Terminal (THAAD).

Por sua vez, a Vila Eskan, a 20 quilômetros a sudoeste da capital, serve como alojamento para soldados americanos, geralmente lá alocados a título de missões de treinamento.

Desde o início da guerra contra o Irã e das consequentes retaliações em bases americanas na região, a imprensa internacional indica que a monarquia saudita também renovou acesso dos americanos à base aérea King Fahad, a sudoeste do país, próximo ao Mar Vermelho e à cidade de Meca.

Ao noroeste próximo desta região, o CENTCOM já realizou operações navais no porto de Yanbu, que liga o oleoduto saudita Leste-Oeste ao Mar Vermelho e opera em capacidade máxima para escoamento da produção petrolífera do país após o bloqueio do estreito de Ormuz, que impediu exportações pelo Golfo Pérsico.

Além do Golfo

Similarmente à retirada do Iraque, militares dos EUA também haviam começado a desocupar a base de al-Tanf na Síria — estrategicamente localizada na fronteira com o Iraque e a Jordânia — após a mudança de regime de Bashar al-Assad e o controle do governo instituído em relação aos combatentes curdos na região.

Antes contando mais de uma dezena de postos no nordeste sírio durante a guerra civil no país, alguma destas bases ainda permanecem ativas na região e alvejadas por ataques do lado iraniano durante o conflito.

Ademais, a agência de notícias Reuters revelou com exclusividade em novembro de 2025 que o presidente Donald Trump negociava com o presidente al-Sharaa o estabelecimento de militares em uma base aérea na capital, Damasco, como garantia de segurança para um acordo de paz sírio-israelense.

Na Turquia, único membro da OTAN no Oriente Médio, a base aérea de Incirlik abriga cerca de 2.500 militares americanos e um dos estoques de armamento nuclear tático mais expressivos da aliança. 

Estima-se que 50 bombas de gravidade B-61 estejam armazenadas no local. O país também sedia a estação aérea de Izmir, que apoia missões da OTAN na região do mar Egeu, entre a Turquia e a Grécia.

A base aérea Al Anad, no Iêmen, funcionava como um pólo de inteligência e contraterrorismo das Forças Armadas dos EUA; contudo, após o início da guerra civil no país, os EUA removeram suas tropas do território em 2015, que passou a ser controlado pelo movimento Ansar Allah (conhecido como "Houthis") desde então.

Em Djibuti — país da África que acessa o estreito de Bab el-Mandeb pelo continente africano, no lado oposto ao território dominado pelos houthis — o Camp Lemonnier é a única instalação americana com capacidade de combate no continente africano, estabelecida em 2003 numa antiga base da Legião Estrangeira Francesa.

Abrigando cerca de 4 mil soldados, serve como plataforma para operações de contraterrorismo no Chifre da África e no Iêmen.

Já no Egito, apesar da histórica cooperação militar entre os dois países desde o tratado de paz israelense-egípcio de 1979, os EUA não mantêm uma base de combate no território. 

A única instalação americana é a Unidade de Pesquisa Médica Naval Três (NAMRU-3), no Cairo, voltada exclusivamente para pesquisa e prevenção de doenças infecciosas.

Israel também abriga uma base permanente no deserto de Neguev, ao sul do território israelense.

Dentro da base aérea de Mashabim, a oeste da cidade de Dimona, dezenas de soldados americanos são alojados em instalações residenciais para a missão de defesa antiaérea, operada pelo Comando Europeu das Forças Armadas dos EUA (EUCOM). Similarmente, o radar antimísseis de Dimona se localiza a oeste da base, construído em 2008 e desde então operado por forças americanas.

*Reconhecido como grupo terrorista na Rússia e proibido em seu território.