As forças de segurança do Haiti e milícias privadas, com apoio dos Estados Unidos, realizam ataques letais com drones em operações contra gangues que podem ter levado a execuções indiscriminadas e colocado civis em risco, apontou relatório divulgado na terça-feira (10) pela Human Rights Watch (HRW).
As operações são realizadas por uma força-tarefa especializada, estabelecida pelo primeiro-ministro haitiano, Alix Didier Fils-Aimé, operada com suporte da empresa militar privada Vectus Global, envolvida no conflito por autorização do governo norte-americano.
A Vectus é presidida por Erik Prince, empresário norte-americano fundador da Blackwater, empresa implicada no massacre de Nisour Square, que matou 17 civis iraquianos em setembro de 2007. Ele declarou que a Vectus assinou um contrato de um ano com o governo transitório do Haiti, contratando operadores de El Salvador para auxiliar a polícia haitiana no uso de drones armados.
O governo dos EUA expediu licenças à exportação de armas e serviços de defesa ao Haiti, conforme confirmou o embaixador dos EUA no país, Henry Wooster, durante uma audiência no Senado dos EUA sobre prioridades de segurança e assistência externa para o país, conduzida em 12 de fevereiro.
Ao embaixador, na ocasião, o senador Chris Murphy questionou como Prince teria conseguido a licença para operar no Haiti, sabendo que seu envolvimento no massacre no Iraque teria "prejudicado a missão dos EUA" no país e alimentado grupos terroristas. Wooster se absteve de comentar acusações contra Prince ou suas empresas.
Dados da repressão violenta
Segundo o relatório da organização, ao menos 1.243 pessoas morreram e 738 ficaram feridas em 141 operações realizadas entre 1º de março de 2025 e 21 de janeiro de 2026, utilizando drones quadricópteros armados com explosivos em áreas urbanas densamente povoadas da capital do Haiti, Porto Príncipe.
Entre os mortos documentados estão ao menos 43 adultos e 17 crianças sem vínculo com organizações criminosas.
"As autoridades haitianas devem agir com urgência para controlar as forças de segurança e os contratados privados que trabalham para elas antes que mais crianças morram", afirmou Juanita Goebertus, diretora para as Américas da HRW.
Um dos ataques mais emblemáticos ocorreu em um sábado, 20 de setembro de 2025, no bairro Simon Pelé, na capital. Um drone com explosivos detonou perto de um complexo cultural onde crianças aguardavam a distribuição de presentes organizada por uma gangue.
Segundo a HRW, dez pessoas que não pertenciam ao grupo criminoso morreram, incluindo nove crianças entre 3 e 12 anos de idade, além de inúmeros feridos com traumatismos graves, amputações e lesões por fragmentação.
"Vivo com esse medo, essa ansiedade, o tempo todo. Rezo para que os drones não estejam mais em nossa área", relatou um comerciante haitiano à organização.
A organização alertou que o uso de drones armados com explosivos em operações policiais pode violar normas internacionais de direitos humanos e pediu investigações transparentes sobre possíveis mortes ilegais, responsabilização dos envolvidos e reparações às famílias afetadas.