Segurança regional ou alinhamento ideológico? A agenda de Trump na Cúpula Escudo das Américas

O encontro, previsto para este sábado na Flórida, reúne líderes da região para abordar o crime organizado e os fluxos migratórios.

O presidente dos EUA, Donald Trump, recebe neste sábado (7), na cidade de Miami, Flórida, chefes de Estado da América Latina e do Caribe em uma cúpula regional centrada no combate ao crime organizado transnacional e à migração irregular, embora a seleção dos países convidados levante questões sobre se o encontro visa realmente uma ampla coordenação hemisférica ou a consolidação de um bloco político afim a Washington.

A porta-voz da Casa Branca, Karoline Leavitt, explicou que o objetivo da reunião é promover "a liberdade, a segurança e a prosperidade" no hemisfério ocidental por meio de uma maior cooperação entre os governos da região.

No entanto, a lista de convidados deixa de fora vários dos países mais relevantes da região em matéria de tráfico de drogas e migração. Entre os governos que não constam da convocatória estão o México, a Colômbia e o Brasil, três atores centrais em qualquer estratégia regional contra o tráfico de drogas ou a gestão dos fluxos migratórios para os EUA.

De acordo com a Casa Branca, os países confirmados para o encontro são Argentina, Bolívia, Chile, Costa Rica, República Dominicana, Equador, El Salvador, Honduras, Panamá, Paraguai e Trinidad e Tobago, além dos EUA como anfitrião.

Entre os líderes que devem participar estão Javier Milei (Argentina), Luis Arce (Bolívia), Rodrigo Chaves (Costa Rica), Luis Abinader (República Dominicana), Daniel Noboa (Equador), Nayib Bukele (El Salvador), Nasry Asfura (Honduras), José Raúl Mulino (Panamá), Santiago Peña (Paraguai) e a primeira-ministra de Trinidad e Tobago, Kamla Persad-Bissessar.

De acordo com a Casa Branca, a reunião busca consolidar uma "coalizão histórica" entre os países participantes para enfrentar os cartéis do narcotráfico e outras organizações criminosas transnacionais que operam no continente.

Agenda regional

Além do combate ao crime organizado, a agenda incluirá o debate sobre a migração irregular, um tema que se tornou um dos eixos centrais da política regional impulsionada por Washington. O governo de Donald Trump reforçou as operações do Serviço de Imigração e Controle Alfandegário (ICE) contra imigrantes irregulares. As autoridades federais ampliaram as detenções e deportações em diferentes cidades do país e pressionaram os governos latino-americanos a cooperar na contenção dos fluxos migratórios e a aceitar o retorno de seus cidadãos.

No caso do Chile, o país atravessa os últimos dias do governo de Gabriel Boric, com o presidente eleito José Antonio Kast a poucos dias de assumir o poder em 11 de março, após sua vitória nas eleições de dezembro de 2025. Durante a campanha, o líder do Partido Republicano antecipou uma política migratória mais rígida e chegou a intimar os migrantes sem documentos a abandonarem o país antes de sua eventual chegada ao poder, levantando até mesmo a possibilidade de coordenar com outros governos da região mecanismos para facilitar o retorno de estrangeiros em situação irregular.

Em Trinidad e Tobago, a segurança tornou-se uma preocupação central. O governo declarou esta semana estado de emergência nacional após um aumento da violência relacionada a gangues e confrontos armados. A medida foi solicitada pela primeira-ministra Kamla Persad-Bissessar após relatórios de inteligência alertando sobre ataques planejados contra as forças de segurança e um aumento dos homicídios relacionados ao crime organizado, o que permite às autoridades realizar prisões e buscas sem mandado judicial.

No Equador, o presidente Noboa anunciou também um toque de recolher em quatro províncias — Guayas, Los Ríos, Santo Domingo de los Tsáchilas e El Oro — que será aplicado durante duas semanas como parte de uma nova ofensiva contra o crime organizado. O país atravessa uma grave crise de segurança ligada ao narcotráfico e à ação de gangues criminosas, em um contexto em que o Estado mantém desde 2024 a declaração de conflito armado interno contra esses grupos e um estado de exceção.

Da mesma forma, países da América Central como El Salvador e Honduras reforçaram nos últimos anos as políticas de segurança contra gangues e organizações criminosas, enquanto os EUA insistem em uma maior coordenação regional para conter o tráfico de drogas e os fluxos migratórios em direção à sua fronteira sul, temas que Washington busca colocar no centro das discussões com os líderes latino-americanos.