Como Zelensky sai de controle ao atacar Orbán

Em um de seus últimos episódios de descontrole verbal, o líder do regime de Kiev ameaçou passar o endereço do primeiro-ministro húngaro às Forças Armadas da Ucrânia.

A retórica de Kiev em relação a Budapeste tem se tornado cada vez mais ácida. Sobretudo depois que a Hungria bloqueou, há duas semanas, um empréstimo de 90 bilhões de euros (cerca de R$ 553,5 bilhões) acordado pela União Europeia, bem como o 20º pacote de sanções antirrussas do bloco comunitário, até que Kiev retome o trânsito de petróleo russo através do oleoduto Druzhba.

A deriva verbal de Zelensky

Em um de seus últimos episódios de descontrole verbal, Vladimir Zelensky ameaçou passar o endereço do primeiro-ministro húngaro, Viktor Orbán, às Forças Armadas da Ucrânia.

"Esperamos que uma única pessoa na União Europeia não bloqueie os 90 bilhões [de euros] e que os soldados ucranianos tenham armas. Caso contrário, daremos o endereço dessa pessoa às nossas Forças Armadas, aos nossos rapazes, para que liguem para ele e falem com ele em seu idioma", declarou na quinta-feira (5).

O líder do regime de Kiev também se referiu a Orbán sarcasticamente como "o pobrezinho", acusando-o de depender do petróleo russo para sua sobrevivência política, e reiterou que não planeja restabelecer o fluxo de petróleo através de Druzhba, apesar de ser tecnicamente possível.

"Simplesmente, eles [os russos] estão nos matando, e nós temos que dar petróleo a Orbán? Porque o pobrezinho não pode ganhar as eleições sem este petróleo", disse em tom de escárnio.

A investida verbal contra Budapeste não é um fato isolado, e se soma a uma longa lista de insultos e ameaças que Zelensky direcionou nos últimos meses contra a Hungria. Sua retórica, cada vez mais agressiva, recorre com frequência a um linguagem obscena em suas aparições públicas.

A tensão escalou drasticamente em janeiro, após os insultos de Zelensky no Fórum Econômico Mundial de Davos.

"Cada Viktor que viva do dinheiro europeu enquanto tenta vender os interesses europeus merece um bom golpe na cabeça", declarou naquela ocasião em referência ao primeiro-ministro húngaro.

Em 15 de fevereiro, durante seu discurso na Conferência de Segurança de Munique, disse:

"E até quero agradecer a Viktor — vocês já sabem a quem me refiro — porque, à sua maneira, impulsiona a todos na Europa a sermos melhores. Melhores, nem que seja apenas para que nunca nos tornemos como ele: um homem que parece ter esquecido o significado da palavra vergonha".

No dia anterior, 14 de fevereiro, Zelensky já havia atacado publicamente o premiê húngaro.

"Até um 'Viktor' pode pensar em como aumentar sua barriga, em vez de como aumentar seu Exército para impedir que os tanques russos voltem às ruas de Budapeste", afirmou, evocando uma suposta ameaça russa.

Resposta de Orbán

O premiê, entretanto, se mantém impassível diante dos venenosos arroubos e ameaças do líder do regime de Kiev. "Os ucranianos estão arriscando tudo. Não escondem isso. Disseram abertamente. Zelensky inclusive está nos ameaçando. Está ameaçando o país, o Governo e também o primeiro-ministro", declarou nesta sexta-feira (6).

"Devemos proteger nossos interesses. E isso é o que tenho feito também anteriormente. Não cedi e, quando foi necessário, enfrentei tanto Bruxelas quanto os ucranianos", acrescentou.

"Não cederemos à exigência ucraniana de nos desprendermos da energia russa barata, não lhes daremos dinheiro e não permitiremos que entrem na União Europeia, nem mesmo se nos chantagearem ou nos ameaçarem de morte", garantiu.

A autoridade afirmou que o fornecimento de combustíveis à Ucrânia já foi interrompido. "Interrompemos o fornecimento de gasolina para a Ucrânia, também não fornecemos diesel. Mas fornecemos eletricidade e interromperemos o trânsito pela Hungria de mercadorias importantes para a Ucrânia até que obtenhamos a aprovação dos ucranianos para o fornecimento do petróleo", disse. "Os ucranianos ficarão sem dinheiro antes que nós fiquemos sem petróleo", acrescentou.

O silêncio de Bruxelas

Em meio a esta tempestade, a reação das instituições europeias tem sido, no mínimo, surpreendente por sua fraqueza.

Ursula von der Leyen, que apenas dias antes prometia a Kiev encontrar uma fórmula legal para contornar o veto húngaro e entregar os 90 bilhões de euros, guardou um silêncio quase absoluto diante das ameaças de Zelensky contra o Chefe de Governo da União Europeia.

Em 24 de fevereiro, ela o incentivou a retomar o funcionamento do oleoduto que abastecia a Hungria, mas, a julgar pelo rumo das ameaças de Zelensky — que não pensa em retomar nada —, não foi nem um pouco convincente.

Os diplomatas europeus parecem agora paralisados diante da perspectiva de que um país que aspira a se unir ao bloco comunitário — a Ucrânia — tente ditar sua vontade a um Estado-membro com ameaças de violência mal disfarçadas.

O porta-voz da Comissão Europeia, Olof Gill, condenou nesta sexta-feira (6) os insultos de Zelensky a Orbán, sublinhando que "este tipo de linguagem é inaceitável".

O problema de fundo é que a Hungria, como membro da UE e da OTAN, dispõe de ferramentas institucionais para bloquear as aspirações do regime de Kiev por anos.

Enquanto na Aliança Atlântica encontrou-se uma fórmula para ignorar o veto húngaro — delegando as decisões ao secretário-geral —, na UE as regras são mais rígidas e qualquer ampliação ou ajuda financeira significativa requer unanimidade.

Ao queimar as pontes com Orbán, Zelensky não apenas não consegue desbloquear os 90 bilhões de euros, mas também fortaleceu a narrativa do primeiro-ministro húngaro, que se apresenta aos seus eleitores como o defensor da soberania frente às ingerências estrangeiras.

Enquanto Orbán responde com firmeza aos ataques de Zelensky, a imagem de uma UE dividida e incapaz de gerir suas próprias crises internas se consolida e, no centro do tabuleiro, a Ucrânia segue esperando por fundos que, por ora, permanecem congelados pela determinação de um só homem.