
Efeito dominó: como o fechamento do Estreito de Ormuz pode abalar a economia mundial

O transporte de mercadorias através do Estreito de Ormuz caiu 90% em comparação com os números dos fins de fevereiro, de acordo com dados da MarineTraffic, com causa do agravamento do conflito provocado pelos ataques de Estados Unidos e Israel contra o Irã.
Os petroleiros e navios de gás concentram-se logo à saída do estreito, temendo serem arrastados para o conflito armado.
A Guarda Revolucionária iraniana declarou na segunda-feira (2) que a passagem está fechada e que qualquer navio que tente atravessar será atingido.

Na quarta-feira (4), o Irã confirmou que o estreito de Ormuz está sob seu controle total e enviou uma mensagem à rede marítima mundial informando que todo o estreito está em estado de guerra.

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De acordo com estimativas, uma interrupção prolongada da passagem pelo estreito não só ameaçará o abastecimento de petróleo e gás, como também poderá afetar outros setores econômicos.
Reação em cadeia em toda a economia mundial
De acordo com a Axios, as interrupções no comércio através desta rota — por onde passa 25% do comércio marítimo mundial de petróleo e 20% do abastecimento de gás natural liquefeito — provavelmente provocarão uma reação em cadeia na economia global.
Cerca de 33% dos fertilizantes do mundo, incluindo enxofre e amônia, transitam pelo estreito, de acordo com a empresa de análise comercial Kpler. É também uma rota fundamental para o alumínio e o açúcar.
Uma nova crise energética na Europa
Um fechamento total ou quase total durante um mês ou mais elevaria o preço do petróleo muito acima dos US$ 100 e empurrar os preços do gás natural na Europa para — ou mesmo acima — dos níveis de crise observados em 2022, disse Hakan Kaya, gerente sênior da empresa de gestão de investimentos Neuberger Berman.
De acordo com o Financial Times, o conflito já provocou um aumento no preço do gás na Europa para o nível mais alto desde 2023.
O indicador aumentou 53% desde 28 de fevereiro. Atualmente, as reservas energéticas dos países da UE estão em menos de 30%. Cerca de 10% de gás natural liquefeito importado pelos países do bloco vem do Catar.
Por sua vez, o presidente russo, Vladimir Putin, não descartou a possibilidade de Moscou redirecionar as exportações russas de gás do mercado europeu para outros mercados alternativos.
"Agora estão se abrindo outros mercados. E talvez seja mais lucrativo para nós interromper agora mesmo os fornecimentos ao mercado europeu. Ir para esses mercados que estão se abrindo e nos consolidarmos lá", indicou.
Ele acrescentou ainda que a situação atual no mercado europeu é, "antes de tudo, resultado da política errada das autoridades europeias no âmbito da energia". "Não há nenhum contexto político aqui, apenas negócios, nada mais", explicou.
Um golpe também para os EUA
As consequências do fechamento do estreito também podem ser sentidas nos Estados Unidos. Tom Kloza, analista de petróleo da Gulf Oil, disse à Axios que espera que o preço médio nacional da gasolina chegue a entre US$ 3,25 e US$ 3,50 (algo entre R$ 17 e R$ 18,2) por galão nas próximas semanas.
Segundo o especialista, o impacto não se limitará à gasolina. O combustível para aviões também está ficando mais caro, o que provavelmente tornará as passagens mais caras.
É importante destacar que o alto preço da gasolina representa um risco de inflação e prejudica a agenda econômica de Trump, que prometeu preços baixos à população.
"A gasolina, que atingiu um preço máximo de mais de US$ 6 por galão em alguns estados durante o mandato do meu antecessor — o que, sinceramente, foi um desastre —, agora custa menos de US$ 2,30 por galão na maioria dos estados e, em alguns lugares, US$ 1,99 por galão", afirmou Trump em seu discurso sobre o estado da União na semana passada.
Agricultura impactada
Um provável impacto no fornecimento de fertilizantes teria repercussões sobre os agricultores americanos. De acordo com Veronica Nigh, economista do Fertilizer Institute, quase 30% da produção mundial de amônia está envolvida ou em risco devido ao conflito, enquanto o número chega a 50% no caso da ureia.
Assim, a Arábia Saudita fornece cerca de 40% de todas as importações de fosfatos dos EUA, usados para produzir fertilizantes.
Nos Estados Unidos, a maior parte da demanda por fertilizantes corresponde a culturas extensivas como milho, soja, trigo e algodão. De acordo com Nigh, os agricultores dessas culturas provavelmente terão preços mais altos de fertilizantes se a guerra continuar.


