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'Quantos posso consumir?': O que os cientistas dizem sobre o consumo de ovos e a saúde cardiovascular

Diferentes estudos analisaram a relação entre o consumo excessivo e as doenças cardiovasculares.
'Quantos posso consumir?': O que os cientistas dizem sobre o consumo de ovos e a saúde cardiovascular123RF

Os ovos são um produto presente na dieta de muita gente e, diante de ta popularidade, são igualmente abundantes as publicações sobre os benefícios e malefícios do consumo desse alimento; por isso, muitas vezes existem dúvidas sobre as consequências que o consumo excessivo de ovos pode ter para a saúde, especialmente para pessoas com problemas cardiovasculares.

Embora seja um alimento altamente nutritivo, nem todas as pessoas devem consumi-lo com a mesma regularidade. "O ovo agrega proteínas de alta qualidade, micronutrientes essenciais e compostos bioativos", explicou ao portal G1 a nutricionista Clarissa Hiwatashi Fujiwara, do Departamento de Nutrição da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica.

A especialista destacou que a clara fornece praticamente toda a sua energia a partir das proteínas, enquanto que a gema concentra gorduras e é diversificada do ponto de vista nutricional, pois contém um nutriente chamado colina, vitaminas lipossolúveis e carotenóides.

Existe uma quantidade diária ideal?

O número de ovos consumidos por dia pode ter consequências para a saúde, mas, de acordo com especialistas, o impacto dependerá de um contexto mais geral, que inclui o estado de saúde geral de cada pessoa. Nesse sentido, o endocrinologista Marcio Lauria, coordenador do Departamento de Dislipidemia e Aterosclerose da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabolismo, alertou que, de acordo com estudos, o consumo elevado pode resultar em aumento do risco cardiovascular e da mortalidade em pacientes com doenças cardíacas.

Uma publicação da Clínica Mayo, dos EUA, que compilou vários artigos científicos, também abordou a relação entre o consumo de ovos e doenças cardíacas. Nesse sentido, ela apontou que, na verdade, outros elementos que podem ser prejudiciais devem ser levados em consideração, como outros ingredientes que podem acompanhar o ovo, como por exemplo, bacon, molho e presunto.

"Consumir até dois ovos por dia é seguro para a maioria das pessoas saudáveis, especialmente quando inserido em uma dieta equilibrada", destacou Lauria. Ele acrescentou que "o impacto do colesterol alimentar [aquele presente nos alimentos] dos ovos sobre o perfil lipídico é geralmente modesto".

Casos específicos para reduzir o consumo

Este cenário muda em grupos específicos, como pessoas com diabetes tipo 2, hipercolesterolemia, hipertensão e doenças cardiovasculares, pois, segundo o especialista, o "consumo elevado de ovos pode estar associado a um risco maior" para a saúde.

No entanto, as repercussões que o consumo de ovos pode ter não devem ser consideradas isoladamente, pois também dependem do padrão alimentar geral de cada indivíduo. "A avaliação deve levar em conta o padrão alimentar global, exames laboratoriais, histórico familiar e presença de doenças metabólicas", comentou a nutricionista Isolda Prado, diretora da Associação Brasileira de Nutrição e professora da Universidade do Estado do Amazonas.

Ela acrescentou ainda que "o ovo pode ser útil em casos de maior demanda proteica, como sarcopenia [perda de massa e força na musculatura esquelética], recuperação pós-cirúrgica, gestação, envelhecimento saudável e prática esportiva". Ajustes devem ser feitos nas pessoas sensíveis ao colesterol alimentar, pois, após algumas semanas, pode haver um "aumento do colesterol total e do LDL [lipoproteína de baixa densidade]".

Opiniões divergentes

A Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabolismo publicou um artigo com os "mitos e verdades sobre o colesterol". Um dos pontos avaliados é como o consumo de proteínas afeta o colesterol.

A publicação explica que a "principal fonte de colesterol" se origina na "síntese do próprio organismo" realizada pelo fígado ou na "baixa captação do colesterol sanguíneo pelas células". "Isso é induzido por dietas ricas em gorduras saturadas. O ovo é rico em colesterol, mas o colesterol da dieta tem pouco impacto nos níveis de colesterol no sangue na grande maioria das pessoas", esclareceu.

Por outro lado, um estudo publicado pelo The American Journal of Clinical Nutrition apontou que os ovos não contribuem para o aumento do colesterol LDL (o ruim). Para isso, analisaram 48 adultos com níveis elevados desse tipo de colesterol e, durante cinco semanas, os submeteram a três tipos de dietas: uma rica em colesterol e pobre em gorduras saturadas, que incluía dois ovos por dia; outra, pobre em colesterol e rica em gorduras saturadas, sem ovos; e a última, rica em colesterol e gorduras saturadas.

Após analisar os resultados, eles verificaram que os altos níveis de colesterol LDL estavam ligados à ingestão de gorduras saturadas, mas não à ingestão de colesterol proveniente dos ovos. Eles até verificaram que as pessoas que ingeriam dois ovos por dia como parte da dieta pobre em gorduras saturadas reduziam seus níveis de LDL.

A influência do ovo nas dietas para emagrecer

Outro ponto da análise trata de como os ovos podem influenciar nas dietas com o objetivo de emagrecer. "Eles ajudam no controle do apetite e na preservação da massa magra, desde que sejam inseridos em um plano hipocalórico equilibrado", afirmou Prado.

Por sua vez, Fujiwara acrescentou: "O ovo contribui para a saciedade ao retardar o esvaziamento gástrico. Estudos mostram que, especialmente no café da manhã, ele pode reduzir a ingestão de energia nas refeições seguintes".

Outro ponto destacado pela especialista é o modo de preparo, já que o consumo frequente de ovos fritos pode aumentar os riscos, ao "favorecer um perfil lipídico menos saudável, sobretudo em pessoas com predisposição a dislipidemias", ou seja, alterações nos níveis de lipídios. Nesse aspecto, a Clínica Mayo destacou que fritá-los em óleo ou manteiga pode contribuir para as doenças cardíacas, que não seriam de responsabilidade direta do ovo em si.

Levando em consideração todos esses fatores, a quantidade adequada de ovos a ser consumida depende do estado de saúde de cada pessoa e de sua dieta como um todo. Alguns estudos mostraram que comer até sete ovos por semana pode ajudar a prevenir alguns tipos de acidentes vasculares cerebrais ou a chamada degeneração macular, que pode levar à cegueira.

Isolda Prado concluiu que "o limite não é um número fixo para todos, mas um intervalo ajustável, definido pela resposta individual e pelo risco cardiovascular global".