
Reino Unido financia e adquire spyware israelense testado em palestinos — Al Jazeera

O governo do Reino Unido está investindo em tecnologias de vigilância desenvolvidas e testadas em palestinos na Faixa de Gaza e na Cisjordânia ocupada, apesar de suas críticas públicas às ações israelenses nessas regiões, apurou o jornal catari Al Jazeera na quinta-feira (26).
Além do sistema de reconhecimento facial Corsight utilizado para rastrear e deter milhares de civis palestinos em postos de controle, o governo britânico adquiriu spyware de pelo menos dois outros fabricantes, Cellebrite e BriefCam, também vinculados a Israel.

Sistemas de vigilância
A Cellebrite é uma empresa israelense ligada ao setor militar que desenvolve software para extrair dados de dispositivos eletrónicos. Este software é utilizado pelo exército israelense em territórios palestinos ocupados, inclusive para acessar informações de detidos em contextos associados a violações de direitos humanos, como torturas sistemáticas, segundo relatório da organização American Friends Service Committee.
A empresa recebeu apoio do Departamento de Defesa dos EUA para desenvolver tecnologia de mapeamento de túneis em Gaza e vendeu o seu software de extração de dados a várias forças policiais do Reino Unido.
A Polícia da Cidade de Londres renovou seu contrato anual com a empresa israelense por mais de 95 mil libras (~R$ 656 mil) em junho de 2025, enquanto a Polícia de Leicestershire renovou seu contrato em março por mais de 328 mil libras (~R$ 2,2 milhões). A Polícia de Transporte Britânica, o Escritório de Fraude Grave do Reino Unido e as polícias de Kent, Essex e Northumbria também firmaram contratos.

Já a BriefCam, fundada em Israel, adquirida pela Canon em 2018 e posteriormente pela dinamarquesa Milestone Systems no ano passado, fornece software de vigilância à Polícia de Cumbria desde pelo menos 2022, enquanto o serviço policial escocês também considera usar o serviço. A companhia fornece ferramentas de análise de vídeo que incluem condensação de gravações de CCTV, reconhecimento facial e de placas de veículos.
A tecnologia tem sido utilizada em Jerusalém Oriental, território palestino ocupado ilegalmente por Israel, e foi documentada como um instrumento na subjugação da população palestina.
A Corsight foi selecionada pelo Ministério do Interior do Reino Unido para expandir o uso de viaturas com reconhecimento facial, apesar de relatos anteriores do The New York Times indicarem que até membros do exército israelense tinham reservas sobre o uso de sua tecnologia em Gaza.
Grupos de direitos humanos alertaram que técnicas pioneiras em Israel estão sendo usadas por governos para atacar ativistas, jornalistas e oponentes políticos, à medida que aumentam as preocupações sobre a disseminação de ferramentas de guerra cibernética não regulamentadas.
Recuos e controvérsias
A Microsoft bloqueou o acesso de uma do exército israelense à sua tecnologia em setembro de 2025, após investigação do The Guardian revelar um projeto secreto de espionagem que coletava milhões de chamadas telefônicas palestinas diariamente em Gaza e na Cisjordânia. Pressão de funcionários e investidores diante das revelações de colaboração levaram à decisão da empresa.
Paralelamente, a administração Trump nos Estados Unidos avançou com a aquisição de tecnologia de spyware israelense para agências de imigração, em meio ao escândalo corrente sobre as atividades do Serviço de Imigração e Alfândega (ICE) no país.
O Departamento de Segurança Interna dos EUA firmou um contrato de US$ 2 milhões (~R$ 10,2 milhões) com a Paragon Solutions, empresa fundada em Israel que produz spyware capaz de invadir qualquer telefone celular. O contrato havia sido iniciado no final de 2024 sob o governo do democrata Joe Biden, mas foi pausado para revisão de conformidade com uma ordem executiva que restringe o uso de spyware pelo governo americano.
O governo de Donald Trump levantou a suspensão do contrato, habilitando ao ICE o uso software Graphite, que permite mais do que o rastreio da localização de um usuário. A ferramenta da Paragon habilita a leitura de mensagens e fotografias, mesmo em aplicativos criptografados como WhatsApp* ou Signal, além de poder ser usado como dispositivo de escuta através da manipulação do gravador do telefone.
"O governo e a polícia não deveriam estar concedendo contratos a empresas israelenses de spyware em nenhuma circunstância", declarou ao Al Jazeera a diretora-adjunta da Palestine Solidarity Campaign, Ryvka Barnard. "Essas empresas desenvolvem e testam seus produtos através do regime de ocupação militar e apartheid de Israel contra os palestinos. É inaceitável que dinheiro público seja dado a essas empresas, permitindo que lucrem e desenvolvam novos produtos usados para vigiar e prejudicar palestinos."
*Pertence à Meta, classificada na Rússia como uma organização extremista, cujas redes sociais são proibidas em seu território.


