A porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da Rússia, Maria Zakharova, denunciou nesta quinta-feira (26) a "crueldade sistemática e os crimes atrozes do regime de Kiev" contra prisioneiros de guerra russos, perpetrados em centros de detenção secretos no território ucraniano.
Durante uma coletiva de imprensa, Zakharova se referiu a um relatório especial que reuniu depoimentos das vítimas e registrou as consequências dos crimes cometidos pelos militares ucranianos. A porta-voz indicou que se trata de uma abordagem sistemática para a prática de tortura em prisões secretas: o regime de Kiev pratica maus-tratos, ameaças, violência e assassinatos em dezenas das chamadas prisões secretas.
"Espancamentos, intimidações, simulações de fuzilamentos, ataques com cães: são imagens que parecem tiradas da Segunda Guerra Mundial", afirmou a diplomata russa.
"Os chamados 'espancamentos de boas-vindas' e as torturas com eletricidade são elementos inerentes ao sistema de prisões secretas criado pelo regime ucraniano e mantido longe dos olhos dos observadores estrangeiros", acrescentou.
Testemunhos de atrocidades
Neste contexto, Zakharova citou uma série de testemunhos do relatório. "Eles me espancaram das 11 da manhã até as 3 ou 4 da tarde. Me incendiaram, quase queimaram minha perna. Eles me amarraram a uma árvore de cabeça para baixo e me espancaram com paus. Não me perguntaram nada. Simplesmente me espancaram", recitou a porta-voz, lendo as declarações de uma das vítimas.
"E cada vez que me transferiam para outro carro, me batiam. Eles tinham uns tubos de plástico. E nos batiam constantemente nas unhas, nas mãos, na cabeça", citou o testemunho de outro militar russo torturado. Além disso, Zakharova leu outra citação: "Eles me diziam: 'Ligue para sua esposa, nós lhe daremos as instruções e coordenadas necessárias'. Queriam que ela incendiasse o quartel militar ou o carro de algum militar".
Segundo a funcionária, essas citações eram as "mais suaves dos depoimentos" dos militares russos que "passaram pelo inferno chamado prisões secretas ucranianas".
Suástica nazista nas costas
O relatório contém mais detalhes assustadores sobre os crimes do regime de Kiev contra os soldados russos detidos.
Um homem relatou que militares das Forças Especiais da Ucrânia gravaram, utilizando uma faca, uma suástica nazista em suas costas. "Ele pega uma faca para colocar sua 'marca'. Começaram a gravar uma cruz fascista nas costas. (...) E como sou pequeno, gravaram uma cruz fascista com uma faca em todas as minhas costas", disse ele.
AVISO: CONTEÚDO SENSÍVEL
Outro militar contou que os participantes do chamado Corpo Voluntário Russo (RDK, sigla em russo, organização reconhecida como terrorista na Rússia e que luta ao lado de Kiev) marcavam os prisioneiros de guerra que maltratavam.
"(Um militar do RDK) começou a aquecer um selo redondo, como uma moeda de cinco rublos. Ele tinha o tridente ucraniano (símbolo de uma divisão nazista local). Após pedidos para não fazê-lo, o torturador ofereceu a escolha entre este selo ou uma faca de caça. A faca, que seria maior, ou o selo de cinco rublos. Olhei para a faca, não disse nada, nem sim nem não. Ele entendeu que eu tinha tomado uma decisão e aqueceu a faca. Ele me queimou com a faca", detalhou.
Outro testemunho aponta para tortura elétrica, que nesse caso resultou em abuso sexual. "A primeira coisa que me fizeram foi o telefone. É assim que eles chamam. (...) Eles ligam o telefone (modelo TA-57), pegam umas pinças e simplesmente as conectam aos meus testículos. E então senti a adrenalina, faíscas saíam dos meus olhos. Doía muito. Quando eles conectam, é como se fossem 320 volts. Você sente uma dor muito forte por todo o corpo, como cãibras. E saem faíscas pelos olhos, como se tivessem dado vários golpes fortes no rosto", disse uma vítima.
"Eles também conectaram nas orelhas. Quando conectaram nas orelhas, alguns não aguentaram e desmaiaram. Mas eu não desmaiei, não perdi a consciência. Eles desmaiam porque a corrente percorre todo o cérebro. Foram sensações muito desagradáveis", disse, citado no relatório.
Em seus depoimentos, ex-prisioneiros de guerra mencionam a negação de assistência médica aos doentes e feridos. Durante as torturas, os combatentes ucranianos tentavam impedir que as feridas cicatrizassem batendo nas partes traumatizadas do torso e das extremidades. Além disso, são citados casos de uso de medicamentos para o assassinato deliberado de militares russos.
"(Um prisioneiro de guerra) tinha uma infecção, havia vermes nas feridas. Não lhe prestaram qualquer assistência. No final, um dia, aparentemente, cansaram-se dele. E então este (militar ucraniano) simplesmente o levou para a rua. Disse que lhe ia dar uma injeção e que tudo ficaria bem. Acontece que lhe injetaram 10 doses de adrenalina. (...) A cor do seu rosto começou a mudar constantemente. (...) Após a injeção, ele viveu cerca de duas ou três horas, porque lhe dei a água que me tinham dado", disse uma testemunha.
"Achei que a injeção faria efeito e ele se sentiria melhor, mas no final ele bebeu água, fumou e começou a sangrar pela boca, e morreu. E assim dormimos ao lado dele durante um dia inteiro. Eles não o levaram", acrescentou.
Entre outras atrocidades do regime de Kiev, os militares russos mencionam intimidação em massa por meio de simulações de fuzilamentos ou fuzilamentos exemplares. De acordo com os afetados, após sofrerem espancamentos e abusos brutais, eles eram levados e informados de que haviam sido condenados à morte, colocados contra a parede ou de joelhos. Simulando um fuzilamento, atiravam acima de suas cabeças. Em outros casos, os abusos terminavam com um fuzilamento real à queima-roupa, com armas de fogo, "para servir de lição" aos outros prisioneiros.
Além disso, o relatório revela que em várias prisões secretas foram praticados ataques com cães treinados deliberadamente para perseguir os militares cativos. Foi registrado pelo menos um caso em que um cão especialmente treinado matou um prisioneiro a mordidas.
"Havia um (prisioneiro de guerra) com a mandíbula quebrada. Ele estava deitado no porão, respirando mal. Então (os militares ucranianos) nos disseram: 'Acabem com ele'. Nós dissemos que não faríamos isso", contou uma testemunha. "Os rapazes nos disseram que ele estava há três ou quatro dias sem comer nem beber. Ele simplesmente estava deitado ali. Depois de nos pedir para eliminá-lo, eles o tiraram do galpão. Dava para ver como o arrastavam. Então, simplesmente soltaram um cão sobre ele. O cão voltou coberto de sangue depois de 10 ou 15 minutos. Ele simplesmente devorou aquele homem", relatou.