O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, proferiu seu discurso do Estado da União na terça-feira (24), um dos mais importantes pronunciamentos anuais dos mandatários americanos. Feita perante sessão conjunta das duas casas do Congresso, a fala tradicionalmente analisa as políticas da administração ao longo do ano anterior e delineia as prioridades presidenciais para o ano seguinte.
Em tom triunfalista, Trump atribuiu a si próprio os méritos por uma transformação econômica e por políticas de segurança interna, além de uma atuação destacada em conflitos internacionais, com ênfase nas tensões comerciais e na escalada militar contra o Irã.
Autoelogio na economia
"Membros do Congresso e meus compatriotas americanos, nossa nação se tornou maior, melhor, mais rica e mais forte do que nunca", declarou Trump na abertura de seu discurso, afirmando passar por "uma era dourada da América".
Segundo Trump, a economia americana experimentou uma "transformação sem precedentes" e uma "reviravolta histórica" desde que assumiu o cargo. Ele alegou que a inflação, que teria atingido níveis recordes sob a administração anterior, despencou para 1,7% nos últimos três meses de 2025, marcando o nível mais baixo em mais de cinco anos.
De acordo com o censo do Bureau of Labor Statistics (BLS) do governo americano, a inflação geral no país atingiu o nível mais alto dos últimos dez anos em junho de 2022, alcançando 9,1%, durante o mandato do democrata Joe Biden. Contudo, Trump assumiu o cargo em janeiro de 2025 com a inflação registrada em 3%. O índice flutuou em torno de 2,7% nos dois últimos meses de 2025, menores níveis desde outubro de 2024. Não há dados oficiais para o mês de outubro, em razão da paralisação histórica de 43 dias do governo americano.
A taxa de desemprego foi descrita como a mais baixa da história, com mais americanos trabalhando do que em qualquer outro momento e 100% dos empregos criados concentrados no setor privado. O censo governamental, contudo, também contrasta com as afirmações de Trump, apontando para alterações percentuais tímidas e ascendentes desde o início de seu mandato, oscilando em torno de 4%. O movimento continua uma tendência estável desde o segundo semestre de 2022, após a recuperação dos altos níveis de desemprego disparados em abril de 2020, na alvorada da pandemia do coronavírus.
Trump, no campo energético, celebrou a redução dos preços da gasolina, cujo galão registrou quedas de curto prazo nos últimos meses de 2025 em diversos estados dos EUA. A produção americana de petróleo registra uma alta histórica, com os Estados Unidos recebendo mais de 80 milhões de barris de petróleo da Venezuela, segundo Trump, após o sequestro do presidente Nicolás Maduro e a intervenção dos EUA na produção venezuelana de combustível.
Política tarifária e controvérsia judicial
Trump dedicou parte significativa de seu discurso à defesa das tarifas comerciais, que foram descritas como fundamentais para a recuperação econômica do país. Ele asseverou que essas tarifas geraram centenas de bilhões de dólares, permitindo acordos favoráveis tanto econômica quanto estrategicamente.
Entretanto, foi reconhecida "uma decisão infeliz da Suprema Corte" que anulou as tarifas na última sexta-feira (20), frente à qual o presidente reiterou seus protestos. A decisão anulou a aplicação de tarifas pela Lei de Poderes Econômicos de Emergência Internacional (IEEPA, na sigla em inglês), colocando mais de US$ 175 bilhões (~R$ 908 bilhões) em receitas geradas sob potencial reembolso, segundo estimativa publicada pela agência britânica Reuters na segunda-feira (23).
Apesar disso, Trump afirmou que "quase todos os países e corporações desejam manter acordos já estabelecidos", sabendo que novos acordos poderiam ser "muito piores para eles". Ele declarou que as tarifas permaneceriam em vigor sob "estatutos legais alternativos totalmente aprovados e testados", sem necessidade de ação do Congresso. Uma tarifa de 10% a todos os países entrou em vigor na terça-feira (24), antecipando um eventual aumento para 15%.
Notavelmente, Trump sugeriu que as tarifas pagas por países estrangeiros poderiam, eventualmente, "substituir o sistema moderno de imposto de renda" para cidadãos americanos, "aliviando um grande ônus financeiro das pessoas que [ama]".
Imigração e segurança de fronteiras
A política de imigração constituiu tema central do pronunciamento. "Hoje, [a] fronteira está segura", proclamou Trump, alegando que, nos últimos nove meses, "zero imigrantes ilegais foram admitidos nos EUA".
O presidente atacou duramente os democratas em relação à imigração, pedindo que legisladores apoiassem "a prioridade de proteger cidadãos americanos, não imigrantes ilegais". Dirigindo-se àqueles que permaneceram sentados em desacordo essa declaração, Trump afirmou que "deveriam se envergonhar" e declarou que seus opositores são pessoas "loucas".
Ele pediu ao Congresso pela aprovação do "Save America Act" para impedir que imigrantes ilegais e outras pessoas não autorizadas votem nas eleições americanas, incluindo exigências de identificação com foto e prova de cidadania.
Política externa e conflitos internacionais
O presidente dos EUA reivindicou ter "encerrado oito guerras" durante seus primeiros dez meses no cargo. Relativamente ao processo de pacificação da Faixa de Gaza, foi afirmado que "todos os reféns, vivos e mortos, foram devolvidos para casa", um resultado que "ninguém pensou ser possível".
Quanto ao Irã, Trump exaltou os ataques ao setor nuclear do país na Operação Midnight Hammer, durante a Guerra dos Doze Dias em junho do ano passado, alertando que a nação persa continua desenvolvendo mísseis que podem ameaçar a Europa, bases americanas no exterior e, em breve, os próprios Estados Unidos.
Embora negociações entre os EUA e o Irã estejam em andamento, Trump atualmente pressiona por limitações ao programa nuclear do país e para restrições a mísseis balísticos de longo alcance, declarando em seu discurso que jamais permitirá que o Irã "tenha uma arma nuclear".
Os esforços agressivos de retomada da hegemonia americana no hemisfério ocidental, prioridade para a estratégia de defesa dos EUA durante seu governo, foram refletidos no comentários sobre suas políticas de vizinhança. Trump descreveu o sequestro do presidente Nicolás Maduro como "uma vitória colossal para a segurança dos Estados Unidos", afirmando trabalhar com a presidente encarregada, Delcy Rodríguez.
Relativamente ao México, Trump fez referência à morte do líder do cartel CJNG, Nemesio Oseguera Cervantes, vulgo "El Mencho", em operação realizada por forças de segurança mexicanas no domingo (22). "Derrubamos um dos chefes de cartel mais sinistros de todos os tempos", observou.
Cuba, entretanto, que sofre com o mais recente recrudescimento do bloqueio econômico e energético por um ato executivo da Presidência dos EUA do fim de janeiro, não figurou no discurso.
Polêmica racial e protesto
O discurso foi marcado por momento de tensão quando o deputado democrata Al Green exibiu cartaz com a frase "pessoas negras não são macacos", em resposta a uma publicação anterior de Trump contra Barack e Michelle Obama, atualmente deletada, que os retratava como primatas.