Notícias

EUA pressiona país latino-americano por projeto de cabo submarino com China

Washington retalia autoridades chilenas por causa da iniciativa chinesa que pretende abrir uma rota direta entre a América do Sul e a Ásia. Pequim afirma que projeto não prejudica terceiros e denuncia acusações infundadas.
EUA pressiona país latino-americano por projeto de cabo submarino com ChinaGettyimages.ru / Florence Lo-Pool

Os governos de China e Chile estão há 10 anos conversando sobre um projeto que gerou retaliações de Washington a três autoridades chilenas. Na terça-feira (23), o assunto reacendeu com uma declaração do ex-embaixador chileno em Pequim, Jorge Heine, informou a imprensa local. 

Chamado "Chile China Express", o projeto trata de um cabo submarino de fibra óptica que conectaria diretamente Valparaíso a Hong Kong. O projeto ainda está em fase de avaliação, mas, mesmo assim, abalou as relações de uma forma inesperada entre os EUA e o Chile.

Uma das pessoas que apresentou o esboço do projeto a Pequim, em janeiro de 2016, foi Heine, que lembrou a existência de um memorando de entendimento. O documento, no entanto, foi recusado pelo então presidente chileno, Sebastián Piñera, em 2019.

"O governo do presidente Piñera originalmente endossou este projeto (...) no entanto, devido a pressões dos EUA, o presidente Piñera acabou cancelando-o. Hoje, 10 anos depois, continuamos sem o cabo", declarou Heine à Radio Infinita.

O objetivo é melhorar a conectividade internacional e reduzir a dependência de rotas que passam pelos EUA, com o horizonte voltado para uma conexão direta entre a América do Sul e a Ásia. Este cenário tem gerado todo tipo de comentários e polêmicas.

O jornal El Mercurio relatou que o ministro dos Transportes e Telecomunicações, Juan Carlos Muñoz, aprovou a concessão do cabo submarino entre China e Chile, mas a decisão foi anulada dois dias depois "por razões de erro técnico ou de digitação".

Posição dos EUA

Na sexta-feira (23), o Departamento de Estado entrou em ação ao revogar os vistos dos membros do governo chileno envolvidos no plano, entre eles Muñoz, acusando-os de "minar a segurança regional".

"O governo norte-americano transmitiu sua preocupação em relação a este projeto", confirmou Muñoz à Tele13 Radio. "Nós recebemos esses antecedentes e eles estão sendo colocados à disposição para análise", assinalou.

O ministro qualificou como "inaudita" a acusação contra ele, que repercute na relação entre os países. "É uma situação injustificada, arbitrária e que atenta contra a soberania do nosso país", destacou.

"Há uma tensão geopolítica internacional e isso parece afetar os projetos que chegam ao nosso país", manifestou o titular da pasta dos Transportes e Telecomunicações.

Sem 'Visa Waiver'?

Outro ator importante nesta questão tem sido o embaixador dos EUA no Chile, Brandon Judd, que transmitiu a postura do governo de Donald Trump e inclusive deixou a entender a possibilidade de Santiago perder o 'Visa Waiver' (Programa de Isenção de Vistos — VWP na sigla em inglês).

"Esperamos que não chegue a esse ponto", disse Judd, citado pela imprensa. "Por ora, o 'Visa Waiver' está a salvo, mas isso não é uma escolha nossa. Depende estritamente do que este governo escolher fazer", alertou.

Judd indicou que o Chile "deve assegurar todas as suas telecomunicações" para se manter dentro do 'Visa Waiver'. "Não é uma ameaça, foi um acordo que o Chile aceitou ao ingressar no programa", acrescentou.

Na entrevista à Tele13 Radio, Muñoz reconheceu que foram advertidos pelo embaixador norte-americano. "É claro que é uma conversa um pouco tensa, ninguém está preparado para dialogar nesses termos", contou.

"Eles viam que um cabo que cruzasse o Pacífico da China ao nosso país era uma condição de insegurança, um risco à segurança nacional tanto para o país deles quanto para o nosso", comentou.

Dura resposta chinesa

Apenas um dia após o secretário de Estado, Marco Rubio, anunciar as sanções, a Embaixada da China no Chile emitiu um duro comunicado no qual nomeia os EUA como "a maior ameaça externa que os países latino-americanos enfrentam".

"O projeto de cabo submarino transpacífico Chile-China nunca mina os interesses de países terceiros. Os Estados Unidos, ao dificultarem este projeto com acusações infundadas, não têm outra intenção senão manter seu monopólio das telecomunicações internacionais", afirmou.

Da mesma forma, Pequim disse que "cedo ou tarde os países latino-americanos acabarão 'fartos' do assédio estadunidense".

Enquanto isso, o governo de Gabriel Boric classificou as declarações de Judd como "inaceitáveis" e defendeu seu direito soberano de tomar as próprias decisões. Já o presidente eleito do Chile, José Antonio Kast, sustentou que "há muitas situações que precisam ser esclarecidas".