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Entenda como os EUA utilizaram histórias sobre OVNIs para encobrir golpe de Estado na América Latina

Décadas após o golpe na Guatemala, documentos e relatos levantam questionamentos sobre o papel de operações secretas dos Estados Unidos no surgimento de teorias envolvendo OVNIs durante a Guerra Fria.
Entenda como os EUA utilizaram histórias sobre OVNIs para encobrir golpe de Estado na América LatinaGettyimages.ru

Em 1954, a Agência Central de Inteligência dos Estados Unidos (CIA) orquestrou e executou uma operação para realizar um golpe de Estado na Guatemala, derrubando o presidente democraticamente eleito Jacobo Árbenz, o que abriria as portas para décadas de ditaduras e guerra civil no país centro-americano.

Anos depois, começou a circular a teoria de que a agência de inteligência americana havia falsificado avistamentos de OVNIs como forma de encobrir suas operações. Essa hipótese não é corroborada por documentos desclassificados nem por historiadores, mas o que há por trás disso?

Interferência americana

O que está comprovado é a interferência dos Estados Unidos na pequena nação latino-americana por meio da operação PBSUCCESS, que envolveu apoio militar secreto, treinamento de rebeldes e propaganda.

Os motivos eram a defesa dos interesses da empresa americana United Fruit Company, diante da política de expropriação de terras que estava sendo realizada, bem como os temores anticomunistas, em plena Guerra Fria.

Arbenz foi destituído pelo coronel Carlos Castillo Armas, dando lugar a décadas de instabilidade militar, mas conseguindo governos mais alinhados com os interesses econômicos e geoestratégicos dos Estados Unidos.

As forças rebeldes dos países vizinhos foram financiadas, treinadas e armadas, e a guerra psicológica foi usada para difundir propaganda e gerar pânico dentro do país, operando a partir do exterior, principalmente através da Rádio Libertação.

Houve avistamentos de OVNIs?

No contexto do aumento das tensões da Guerra Fria e dos contínuos avistamentos de OVNIs, o diretor de Inteligência da Força Aérea dos Estados Unidos, major-general Charles P. Cabell, ordenou um novo projeto OVNI em 1952. Ele foi chamado de Projeto Livro Azul e se tornou o principal esforço da Força Aérea para estudar o fenômeno OVNI durante as décadas de 1950 e 1960.

O alarme foi dado no verão de 1952, quando ocorreu um grande aumento de avistamentos nos EUA. No entanto, os avistamentos não se limitavam geograficamente e os relatos chegavam de pontos de todo o globo, inclusive da América Central.

OVNIs ou aviões?

Estudos da CIA concluem que mais da metade de todos os relatos sobre OVNIs registrados nas décadas de 1950 e 1960 foram causados por voos de reconhecimento em alta altitude do avião Lockheed U-2, apelidado de "Dama Dragão", e do OXCART (A-12/SR-71). O aumento dos voos secretos provocou, por sua vez, um aumento nos relatos de avistamentos de objetos voadores não identificados.

Assim, a explicação para esses fenômenos está nos aviões espiões U-2. Eles começaram a voar em meados da década de 1950 a altitudes superiores a 60 mil pés (18 mil metros), muito mais alto do que qualquer avião comercial conhecido na época.

Muitos dos avistamentos foram relatados por pilotos de companhias aéreas comerciais e de aviões militares, que afirmavam ter visto objetos estranhos e brilhantes a grande altitude. Agora sabe-se que eram principalmente reflexos do sol nas asas prateadas desses aviões espiões.

Engano deliberado?

Atualmente, muitos consideram que a Força Aérea dos Estados Unidos enganou deliberadamente a opinião pública para proteger seus programas secretos.

Foi uma ilusão óptica que ajudou a alimentar conspirações posteriores, mas que explicou muitos dos avistamentos que ocorreram graças ao fenômeno que fazia com que os U-2, voando a mais de 18 mil metros de altitude, refletissem a luz do sol e aparecessem como objetos brilhantes que criavam confusão nos observadores.

Não é que os avistamentos tenham sido falsificados, como sugerem algumas hipóteses conspiratórias, mas sim que seus relatórios foram canalizados através do Projeto Livro Azul para investigação, classificando-os como objetos identificados, mas sem revelar sua verdadeira natureza, para manter ocultos seus programas secretos.

Projeto Livro Azul

O Projeto Livro Azul, criado em março de 1952 e que esteve em vigor até 1969, tinha como objetivo declarado estudar objetos voadores não identificados. No entanto, ainda hoje não está claro se ele foi efetivamente utilizado para monitorar esses objetos desconhecidos que voavam no espaço aéreo americano ou para encobrir programas ocultos dos quais o próprio grupo estava plenamente ciente.

Quando este projeto encerrou suas atividades, seus pesquisadores haviam investigado um total de 12.618 avistamentos de OVNIs, identificando todos, exceto 701, como interpretações errôneas de objetos convencionais.

Embora se tratasse de um "engano" justificado por interesses nacionais, deixou-se crescer as teorias da conspiração e alimentou a controvérsia sobre o encobrimento desses "discos voadores" que se multiplicaram durante a década de 1970.