Nas últimas semanas, uma palavra começou a circular nas redes sociais sem que a maioria dos usuários soubesse do que se trata. São os "therians", um neologismo que ainda não se sabe se será uma moda passageira ou se veio para ficar.
Aqueles que se identificam como "therians" afirmam se identificar de alguma forma com um animal não humano no plano identitário, espiritual, neurológico ou emocional.
Normalmente, referem-se a cães, felinos ou lobos, entre outras espécies, embora esclareçam que estão cientes de que, biologicamente, são humanos.
Assim, mantêm uma vida dentro das normas sociais aceitas: trabalham, estudam e relacionam-se com outras pessoas. No entanto, às vezes encontram seus semelhantes e é então que podem expressar sua outra "identidade", com atitudes e movimentos relacionados aos animais com os quais se sentem conectados.
É aí que entram em jogo as máscaras ou outros elementos simbólicos pelos quais eles podem ser reconhecidos, além de seus comportamentos característicos, às vezes andando de quatro, cheirando as pessoas ao seu redor e até mesmo tentando brigar.
De fato, já ocorreram alguns incidentes estranhos. Recentemente, uma mãe denunciou que sua filha havia sido mordida no tornozelo por um "therian", depois que um grupo deles se aproximou da adolescente, cheirou-a e a seguiu. Os fatos teriam ocorrido na cidade argentina de Córdoba.
A presidente do Colégio de Veterinários de San Luis, Verónica Veglia, relatou em uma entrevista que viveram um episódio incomum com um "therian" e seu "dono", quando estes foram a uma clínica veterinária local para solicitar atendimento médico para o "animal de estimação".
"Obviamente, nós, como médicos veterinários, não podemos atender pessoas", disse a profissional, que informou que os envolvidos foram orientados a procurar um centro de saúde para humanos.
Não se trata de um fenômeno completamente novo, pois há vestígios dessa expressão desde os anos 90, mas atualmente está vivendo um boom, amplificado pela difusão de imagens e vídeos nas redes sociais.
Os "therians" falam de uma conexão interna com uma espécie animal e compartilham rituais com aqueles que se sentem da mesma forma, bem como máscaras, colares ou outros acessórios com os quais externalizam com qual espécie sentem essa sintonia especial.
O termo utilizado para descrever essa nova experiência íntima ou identidade, "therians", vem de "therianthropy", palavra usada para descrever pessoas que sentem uma profunda identificação com um animal.
Diferenças com os furrys
A nova tendência pode ser confundida com o movimento "furry", embora os "therians" afirmem que o que os diferencia é o nível de conexão com os animais, que é superior. Assim, os primeiros vivem isso como algo mais lúdico e recreativo, enquanto os segundos enfatizam que não se trata de nenhum jogo.
O fato é que o furor é tão grande que, na Argentina, já foi inaugurada a primeira escola para ensinar a andar, se mover e uivar, latir ou miar, ou seja, para aprender a se comportar como o animal com o qual cada um se identifica. Ela se chama "Fyrulais".
Controvérsias
O fenômeno desencadeou várias controvérsias. Por um lado, há vozes entre os ativistas dos movimentos LGTBI* que expressam certo receio de que essa novidade possa ser usada para deslegitimar lutas históricas pela igualdade de gênero e pelos direitos das diversidades afetivo-sexuais.
Também nos campos da psicologia e da psiquiatria existem certas preocupações. Embora se saliente que identificar-se como um "therian" não é necessariamente uma patologia, preocupa a possibilidade de que isso possa traduzir-se em mal-estar na vida cotidiana ou causar sofrimento, segundo aponta um especialista em declarações recolhidas na LU9 Mar del Plata.
A verdade é que o debate praticamente começou e parece exigir uma conversa ainda mais ampla sobre as identidades na era digital.
*O movimento internacional LGBT é classificado como uma organização extremista no território da Rússia e proibido no país.