Notícias

Bomba suja: a arma radiológica que espalha mais medo do que destruição

Artefato que combina explosivos convencionais com material radioativo, a chamada "bomba suja" não tem o poder devastador de uma bomba nuclear, mas pode contaminar áreas urbanas, provocar pânico em massa e gerar impactos econômicos e psicológicos duradouros.
Bomba suja: a arma radiológica que espalha mais medo do que destruiçãoGettyimages.ru / AleksandarGeorgiev

A chamada "bomba suja" é um tipo de arma de dispersão radiológica que combina um explosivo convencional, como, por exemplo, a dinamite, com material radioativo. A bomba suja não é uma arma nuclear - tem potência extremamente inferior, não é classificada como uma arma de destruição em massa e tem outro mecanismo de funcionamento. 

Apesar da maioria das bombas sujas não serem capazes de liberar o volume de radiação o suficiente para matar pessoas, elas podem criar pânico e medo, contaminar a região atingida e exigir limpeza intensa. Por essas razões, as armas também podem ser vistas como instrumentos de perturbação em massa, levando em conta o fato de elas frequentemente serem usadas por terroristas. 

De projeto militar esquecido a símbolo do terrorismo

O conceito de bomba suja, ou arma radiológica, surgiu no fim da década de 1940, quando se compreenderam melhor os efeitos de materiais radioativos. Nos anos 1950, os Estados Unidos e a União Soviética testaram meios de dispersar radiação como parte do arsenal militar, em certa medida análogos às armas químicas.

A ideia era mais atrapalhar o inimigo do que destruí‑lo, obrigando‑o a gastar tempo e recursos com descontaminação de tropas e equipamentos. Com o tempo, porém, ficou claro que lidar com material radioativo era caro, complexo e perigoso também para quem o utilizava, o que reduziu o interesse militar.

Assim, o tema foi saindo do planejamento das forças armadas e ressurgiu mais tarde, associado ao terrorismo. Após 2001, a "bomba suja" passou a ser vista principalmente como instrumento de intimidação psicológica nas mãos de grupos não estatais, e não como arma de guerra convencional.

Em 2015, foi revelado que Israel havia realizado uma série de testes de bombas sujas, que registraram um nível bastante baixo de radiação fora da área de explosão imediata, apoiando a hipótese de que as bombas sujas eram mais eficazes no nível psicológico.

Funcionamento

Uma bomba suja combina um explosivo convencional com uma fonte de material radioativo, colocada dentro ou próxima da carga. Quando o explosivo detona, ele fragmenta a cápsula com o material, gerando poeira ou detritos radioativos, que são lançados no ar e carregados pelo vento para a área ao redor.

Após a explosão, a nuvem de poeira radioativa se espalha sobre solo, prédios e objetos, criando focos de contaminação que podem permanecer perigosos por bastante tempo, dependendo do tipo de elemento químico utilizado. Em muitos casos, a dose não é imediatamente letal, mas pode aumentar o risco de câncer, sobretudo para quem inala partículas ou permanece exposto a elas.

O mecanismo é diferente do usado para bombas atômicas: enquanto uma bomba atômica envolve a divisão de átomos e uma enorme liberação de energia que produz a famosa 'nuvem de cogumelo', uma bomba suja não pode criar uma explosão do tipo. Em vez disso, uma bomba suja usa dinamite ou outros explosivos para espalhar poeira radioativa, fumaça ou outro material, a fim de causar contaminação radioativa.

Por causa da bomba nunca ter sido usada, existem somente os dadoscalculados sobre a possível área de contaminação, que indicam que a disseminação dos materiais deve ser menor. Portanto, o efeito pode ser mais intenso e estável ao longo do tempo. 

Do ponto de vista técnico, montar esse tipo de dispositivo é bem mais simples do que construir uma arma nuclear, pois exige apenas acoplar material radioativo a um artefato explosivo comum. A principal dificuldade está em obter os materiais químicos adequados em quantidade suficiente, muitas vezes presentes em equipamentos médicos, industriais ou de pesquisa nem sempre muito bem protegidos.

Qual dano bomba pode causar?

De fato, a bomba nunca foi usada, por isso podemos somente supor quais seriam consequências.

Praticamente, o dano da bomba depende de um leque de fatores, inclusive dimensão do explosivo, quantidade e tipo de material radioativo utilizado, meios de dispersão e condições meteorológicas. 

Os fatores que definem a influência no ser humano incluem a quantidade de radiação absorvida, o tipo de radiação (gama, beta ou alfa), a distância entre a radiação e um indivíduo, os meios de exposição-externos ou internos (absorvidos pela pele, inalados ou ingeridos) e o período de tempo exposto.

Apesar de não ter efeito imediato em pessoas, poeiras e fumaças radioactivos espalham-se rápido e, inaladas em grande volume, levam a dezenas de problemas de saúde, inclusive câncer e podem até mesmo causar a morte. É importante destacar que vários tipos de materiais radioativos provocam problemas em vários partes do corpo.

Muitos especialistas acreditam que os termos "radioativo" e "radiação" são pouco compreendidos, o que aumenta o potencial de pânico em caso de uso de uma bomba suja. Nesse cenário, o maior custo tende a ser econômico e psicológico, com possível abandono de áreas urbanas e forte desorganização social, mais do que em vítimas diretas da radiação.

Controvérsia sobre o risco

Autoridades e especialistas divergem sobre o real risco que uma bomba suja representa para pessoas próximas à explosão. A incerteza central é o quão perigosa é a radiação dispersa e por quanto tempo ela permanece crítica.

Uma corrente ligada ao modelo linear defende que qualquer dose de radiação implica risco, que cresce proporcionalmente à quantidade de material radioativo espalhado. Já os defensores do modelo de "limiar" afirmam que abaixo de certo nível os efeitos são mínimos e só após esse ponto o risco aumenta de forma relevante.

Cálculos indicam que poucas quantidades de elementos químicos poderiam, pelos padrões atuais, tornar uma área "inabitável", embora o aumento estatístico de câncer seja pequeno. Por isso, alguns especialistas consideram que o perigo físico tende a ser superestimado e que o impacto mais forte de uma bomba suja seria psicológico e social.