
Delcy Rodríguez: 'O que a política não conseguiu, eles pediram para uma potência nuclear resolver'

De acordo com a presidente encarregada da Venezuela, Delcy Rodríguez, o "ódio" de um setor político e econômico em relação a grande parte da população venezuelana, bem como a incapacidade do país sul-americano de gerir eficazmente as tensões, acabaram por propiciar as condições que permitiram que os EUA fizessem a agressão militar do dia 3 de janeiro.

"O ódio de uma certa classe neste país — a classe econômica e política — por certos segmentos da população venezuelana atingiu tal intensidade que eles chegaram ao ponto de recorrer à ajuda externa. O que a política nacional não conseguiu resolver, eles exigiram mísseis, bombas [...]. O que a política não conseguiu resolver, eles pediram aos militares, à potência nuclear deste hemisfério, que viessem resolver no país", afirmou a presidente na segunda-feira (23) no Palácio de Miraflores, durante um encontro com vítimas da violência política.
Delcy, cujo pai foi torturado até a morte décadas atrás pela polícia estatal venezuelana, disse que, ao assumir o cargo de presidente encarregada diante de uma situação tão complexa e sem precedentes causada pela agressão militar externa de 3 de janeiro, a primeira coisa em que pensou foi em lançar um programa de convivência democrática pela paz, percebendo que era o ódio, expresso em várias formas de intolerância e desconsideração da alteridade, a causa principal da tragédia.
"Depois disso, eu disse: 'A Venezuela precisa curar suas feridas porque fomos longe demais'. Isso levou à disseminação no exterior, por meio de mídias influentes […], de mentiras e distorções perigosas sobre a Venezuela que tentaram justificar a intervenção em nosso país e [levaram a] uma situação extremista no âmbito do direito internacional, completamente desvalorizada e minada pelo sequestro do presidente [Nicolás] Maduro e da primeira-dama da Venezuela [Cilia Flores]", declarou ela.
Cara a cara com os "executores"
Ela também admitiu que, como vítima de violações dos direitos humanos, já havia se sentado "cara a cara [...] com os executores" que tiraram a vida de seu pai. Na época, ela acreditava estar fazendo isso por seu país, e essa postura agora lhe permitia sentar-se em pé de igualdade com aqueles que violaram a soberania da Venezuela em janeiro.

"Tive que encarar os algozes de nossos heróis e heroínas no dia 3 de janeiro. Fiz isso pela Venezuela, e estamos fazendo isso pela Venezuela. Estamos fazendo isso pelo povo venezuelano, pela nossa juventude", declarou.
Nesse sentido, ela garantiu que a diplomacia resolverá as "diferenças geopolíticas" de Caracas com as "potências imperiais do mundo". "E é justamente por meio da cooperação econômica e comercial que poderemos nos beneficiar da enorme riqueza e do potencial material que nosso país possui", enfatizou.
"Falta justiça para as vítimas"
A presidente encarregada reconheceu que o Estado venezuelano nem sempre agiu com rapidez, decisão e justiça na imposição de sanções aos responsáveis, fato que atribuiu ao prolongado bloqueio que assola as principais autoridades do país há mais de uma década.
"É preciso dizer: há uma falta de justiça para as vítimas", reconheceu, antes de observar que as medidas de reparação incluem não apenas a recente adoção e implementação acelerada da Lei de Anistia, mas também a implementação de mecanismos de recuperação para outros grupos vulneráveis, como agricultores, trabalhadores e inquilinos, por meio do Programa de Convivência Democrática e da Comissão Judicial da Revolução.
"O Estado venezuelano está sob um nível tão alto de adversidades, agressões e ameaças que seus poderes e capacidades como Estado [...] também foram comprometidos. E por essa razão, apelo à criação de um novo sistema de justiça para todos, para toda a Venezuela", afirmou.
Persistem os planos para ameaçar a paz
Ela observou que está ciente de que "alguns círculos estão interpretando mal o que está acontecendo no país, avaliando-o [...] em termos de uma derrota política partidária", quando, na realidade, "a Venezuela perdeu em 3 de janeiro" e "não houve vencedor no país bolivariano".
Essas pessoas, disse, têm "planos para ameaçar a paz e a reconciliação nacional", sobre os quais prometeu informar o país no "momento oportuno". "Para que se saiba quem, de um hotel de luxo nos EUA ou na Europa, pretende interromper esse processo, pretende interromper o caminho para a calma e a paz na Venezuela. E que o povo venezuelano seja o juiz; que diga o que devemos fazer. Porque já chega! Aí eu digo: 'Chega de repetição'; aí eu clamo por justiça genuína e verdadeira", concluiu.

