Conselho da Paz de Trump quer criar criptomoeda para habitantes de Gaza

A iniciativa prevê uma moeda digital que poderia ser atrelada ao dólar americano, em meio ao colapso do sistema bancário de Gaza.

O Conselho da Paz, promovido pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, está avaliando a criação de uma moeda digital estável (stablecoin) para financiar a reestruturação econômica da Faixa de Gaza, informou o Financial Times na segunda-feira (23), citando fontes anônimas.

A iniciativa, ainda em fase preliminar, visa oferecer uma alternativa ao sistema bancário tradicional, severamente impactado pelos dois anos de conflito entre Israel e Hamas.

Stablecoins são moedas digitais de valor estável, pareadas com algum ativo material, seja ele uma commodity ou outras moedas. Uma das fontes afirmou que a moeda poderia ser atrelada ao dólar americano com a esperança de que empresas árabes do Golfo e palestinas com experiência no setor de criptomoedas ajudem a impulsionar a iniciativa.

Segundo a fonte, não seria uma "moeda de Gaza", nem uma nova moeda palestina, mas sim um meio de permitir que os habitantes do enclave realizassem transações digitais.

Regentes do projeto

O projeto é liderado pelo empreendedor israelense Liran Tancman, assessor não remunerado do Conselho de Trump, ex-oficial de Inteligência de Israel e cofundador do Comando Cibernético de Israel. Tancman é também um dos fundadores da Gaza Humanitarian Foundation (GHF), criada em fevereiro de 2025 para distribuir assistência em corredores humanitários no enclave, notórios pelas ocorrências sucessivas de disparos indiscriminados pelas forças armadas de Israel e por mercenários contra palestinos comprimidos nas rotas de provimento. A ONU denominou a GHF como "um exemplo extremamente perturbador de como a ajuda humanitária pode ser explorada para agendas militares e geopolíticas secretas, em grave violação do direito internacional", denunciando o envolvimento da inteligência israelense, empresas americanas e ONGs obscuras.

O projeto envolve também o Comitê Nacional para a Administração de Gaza (NCAG) e o Escritório do Alto Representante do Conselho da Paz, chefiado pelo ex-enviado da ONU e ex-membro do Parlamento Europeu, o búlgaro Nickolay Mladenov. Caberá ao Conselho e ao NCAG definir a estrutura regulatória e o acesso à stablecoin, embora nenhuma decisão definitiva tenha sido tomada.

Crise monetária

Com a oferta de dinheiro físico dizimada pelo bloqueio de Israel a entrada de moeda e pela destruição da maioria dos caixas eletrônicos, a Palestina vive uma crise grave de liquidez. A escassez e a má conservação das cédulas físicas têm paralisado transações básicas e população se tornou refém de "corretores de dinheiro", que cobram comissões abusivas que chegam a 40% do valor sacado, conforme informou a revista americana de negócios Fortune em julho do ano passado.

A região sofre de uma inflação devastadora, desemprego massivo e a depreciação acelerada do shekel, a moeda israelense utilizada em Gaza. Sem novos ingressos de cédulas, as notas circulantes estão tão desgastadas que a reparação de dinheiro surgiucomo um novo ofício, indicou a mídia The New Humanitarian. Mesmo assim, reporta-se que comerciantes frequentemente recusam cédulas velhas ou reparadas.

Alternativas de pagamento digital já foram tentadas, como o sistema Iburaq da Autoridade Monetária Palestina (PMA) — instituição que atua como um banco central para Gaza e Cisjordânia —, mas esbarram em problemas crônicos de infraestrutura. Gaza sofre cortes frequentes de energia e a rede de telecomunicações é limitada à lenta tecnologia 2G, além da instabilidade no fornecimento de internet. Durante os períodos de cessar-fogo, o uso de pagamentos digitais aumentou, mas recuou com o retorno dos confrontos.

Apoio e crítica

A possibilidade de que uma moeda digital exclusiva para Gaza, não controlada pela PMA, possa aprofundar a separação econômica entre o enclave e a Cisjordânia, fragilizando a unidade econômica palestina, é considerada por analistas em face da proposta.

Além disso, organizações de direitos humanos alertam que um sistema financeiro digital governado por entidades externas sob tutela internacional, sem soberania palestina plena sobre dados e infraestrutura, transformaria a tecnologia em um instrumento de controle coletivo. O instrumento poderia subjugar um direito fundamental de acesso a recursos financeiros — e, por extensão, a alimentos, medicamentos e abrigo — a decisões de segurança e classificações arbitrárias de autoridades israelenses e estrangeiras.

Alternativamente, a própria Autoridade Monetária Palestina é favorável à digitalização de sua economia, em face dos desafios estruturais vividos no enclave. Citado pela instituição, o Diretor do Departamento de Estabilidade Financeira da PMA, Iyad Al-Zaitawi, afirmou que os sistemas de pagamento eletrônico são fundamentais "para garantir a continuidade dos serviços financeiros na Faixa de Gaza", considerando o acesso digital como um meio de estabilização e regularização das transações financeiras, que habilitaria o fluxo de ajuda humanitária.